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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

DESEJOS E MENTIRAS


Na esquina havia um boteco improvisado. João Carlos cuidava do pé-sujo. Fazia cachorro-quente, vendia cerveja gelada e por fora fornecia maconha e cocaína, batizadas, mas muito apreciadas pelos incautos da madrugada. Apesar de tudo, tinha uma clientela grande e fiel. A rua suja, mal iluminada, fedendo a vômito, esgoto e perfume barato, abrigava prostitutas e ladrões.
Agneta chegava quase sempre depois das onze da noite. Dividia a esquina com outras três putas: duas irmãs adotivas que pintavam o cabelo de loiro, quando a grana permitia, e um travesti, vindo do Maranhão. A bicha só sabia reclamar da mãe velha, bêbada e doente que tinha que sustentar. Ali fizeram amizade.
– Ei Joca, me dá um teco ai? Te pago com boquete, que tal? Agneta tentava seduzir o pobre João Carlos, o Joca para os íntimos. O vendedor já beirava os 60 anos e tinha família enorme pra sustentar.
– Dá não, respondia. Posso adiantar um dog, quer?
– Que cachorro o quê? Quero é cheirar, encher a fuça de pó, rebatia Agneta. E ao Joca restava sorrir meio sem graça, quase amarelo.
Naquela noite, um carro caindo aos pedaços dobrou a outra esquina e dentro dois homens. Pareciam recém-saídos do trabalho em uma obra. Olhavam em volta. Tinham as mãos sujas de terra, cimento e cal. Passaram pelo ponto devagar. Pararam logo em seguida e  Andreza, ou melhor, Paulo José, a bicha do Maranhão, não perdeu tempo e se jogou na janela do carro. 
– E ai? Programinha à “trêixxx”? Faço gostoso, enfatizou.
– Não dona, a gente quer conversar com a magrela ali do canto.
Agneta sentiu todos os olhares voltados para ela. Cabelo preto, pele branca, bota de salto alto, batom exagerado e magérrima. Era ela.
– Vamos? Disse Agneta sem muita convicção.
– Vamos princesa! Em coro, responderam os dois. E foram.
O hotel era o mesmo de sempre. Quarto 520. Agneta já conhecia o gerente, o porteiro, a camareira. Já tinha transado com todos. Menos com o cozinheiro, que também era bicha e cagava pra sedução da gótica magricela que se insinuava toda vez que ia tomar café da manhã. Ocasião em que ela sempre comia dois pães com mortadela e um copo de café com um dedo de leite. Pedia um suco e ela e Paulo José, a travesti Andreza,, riam muito da tentativa do cozinheiro de provar que o “Tang” era suco natural.
Foi nesse hotel sujo e barato que ela chegou com os dois homens.
No quarto eles contaram que eram irmãos. Agneta foi sedutoramente tirando a roupa quando um deles deu-lhe um tapa na cara. Foi tão inesperado que ela desequilibrou e caiu na cama. Os dois foram pra cima dela, bateram novamente. Agneta não chorou, não reclamou, sorriu e disse:
– É isso que vocês querem? Então batam com mais força. Vamos lá! Disse com um sorriso safado. Os dois ficaram sem ação, como se o jogo tivesse acabado de se inverter. Agneta continuou provocando e eles comeram a prostituta barata como se cometessem um estupro. Com a diferença de que ela estava se divertindo mais do que eles.
Agneta gritava e gemia feito louca. Ela percebeu que os homens estavam surpresos. A impressão era de que aquilo nunca tinha acontecido antes. Ela ficou de quatro, se empinou e pediu para os dois entrarem nela ao mesmo tempo. Os dois irmãos, incrédulos, suados e babando, gozaram sem camisinha. Rapidamente. Ao terminarem o serviço apenas vestiram as calças e saíram, em silêncio.
Agneta ainda controlava o fôlego quando eles deixaram o dinheiro em cima da mesinha ao lado da cama. Bateram a porta. Agneta limpou o sangue no canto da boca. Eles bateram com muita força. O olho estava inchado. Ela fumou o último cigarro, cheirou duas carreiras da coca batizada do Joca e saiu. A gótica maltrapilha voltou para o ponto.
Lá encontrou Cassiana, uma das irmãs loiras, a gorda, e perguntou se ela tinha cliente:
– Nada. A Catilene – a irmã bonita – saiu com um playboy que disse que não tinha dinheiro pra nós duas, respondeu a colega mordendo o lábio e arrumando o cabelo.
– Cassiana, quanto você cobra? A menina deu o preço, com e sem camisinha, com e sem anal.
Agneta falou:
–  Te pago o dobro, vai comigo, agora? E ela foi.
Voltaram ao hotel, ao quarto 520 que ainda cheirava a sexo e cigarro. Transaram até de manhã. Nenhuma das duas cansou. A cocaína fazia a parte dela. Em meio à farra, Cassiana perguntou quanto Agneta cobrava.
– Só por curiosidade, explicou a gorda.
– Pra você, dou de graça! E voltaram as duas a se comer. Agneta gemia, de prazer e de dor, seus lábios estavam ainda mais roxos.  
Cansadas, dormiram. Agneta acordou com o celular tocando dentro da bolsa. A boca seca conseguiu gritar:
– Caralho! Estou atrasada. Tenho que ir embora! Acorda Cassiana.
Agneta vestiu a roupa, saiu correndo pelo hotel, o carpete velho levantava poeira. Ela tropeçou numa ponta da escada e quase quebrou o pé. A outra puta corria atrás com sapatos na mão e dobrou a esquina antes de Agneta conseguir entrar num carro e sair às pressas.
Joca guardava o dinheiro e o espólio de mais uma madrugada fria quando viu um carrão passar correndo. Dentro do tal carrão, Agneta dirigia nervosa e ao mesmo tempo tentava trocar o casaco. Joca estranhou “nunca pensei que essa puta gótica tivesse um carro desses”, pensou Joca. “Dog grátis nunca mais”, sentenciou.
Ao mesmo tempo os dois homens da noite anterior, os tais que comeram Agneta,  faziam o que realmente sabiam fazer: pediam esmolas no semáforo da rua principal. Agneta parou no sinal. Os dois reconheceram a puta e enfiaram a cara no vidro aberto do carro.
– Acho que você gostou de sentir nós dois, hein, dona? Comentou um deles.
– Ah merda, saiam da frente, gritou Agneta enquanto acelerava o carro.
Ela conseguiu sumir na rua em alta velocidade. Os dois homens quase foram atropelados, chamando a atenção de quem estava por perto.
A respeitável doutora Agneta chegou atrasada no hospital onde era a médica principal do ambulatório. A secretária estranhou o cabelo desgrenhado e os enormes óculos escuros, que tentavam esconder o rosto pálido e machucado. Optou não comentar nada, a doutora Agneta era muito mal humorada. Herdeira de um dos homens mais ricos da cidade trabalhava no hospital público só por diversão, ou punição a si mesma - como gostava de dizer. E por prazer mantinha os programas como principal prostituta do boteco do Joca.
O dia passou normalmente, apesar da dor depois da surra. Agneta não pensou nem em Cassiana, nem nos dois homens sujos de cal.
Foi para casa descansar e no outro dia conseguiu chegar no horário correto. O expediente começou com a Dra. Agneta lendo o jornal enquanto comia croassant e bebia capuccino na cafeteria:  "Polícia finalmente encontra os irmãos que torturavam, esquartejavam e enterravam as vítimas em lápides improvisadas de cimento e pintadas de cal. As vítimas eram prostitutas que apanhavam até a morte. Os homens foram denunciados por um vendedor de cachorro-quente que reconheceu os dois quando tentavam roubar o carro de uma importante médica da cidade".
Agneta engasgou com o café e do lábio escorreu mais um fio de sangue.

FIM

ORIGINAL PUBLICADO NO BLOG BAR DO ESCRITOR

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