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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O VIDEOCASSETE E MEU PRIMEIRO BEIJO




– Quem quer ficar com o papel da bruxa?

– Eu, eu, eu! – Gritei, me antecipando às coleguinhas.

Para minha grande surpresa, ninguém mais se candidatou. Era a formação do elenco para uma peça do balé. A professora estava montando a historinha da Bela Adormecida.

Lá em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, a cidade era tão incipiente que não havia uma escola especializada em balé. Quando comecei os primeiros passos, as aulas eram improvisadas em alguma sala da escola primária. Até que ganhamos status e fomos transferidas para o prédio do “Artesanato” – onde o nome já dizia, funcionava uma associação de artesãos. As barras para as bailarinas se equilibrarem eram de cano PVC e não tínhamos espelho nem camarim, mas éramos cheias de entusiasmo.

Coube a mim, então, fazer o papel de bruxa. Fiquei tão orgulhosa. Minha roupa era preta, brilhante e eu tinha vários solos na apresentação. No auge dos meus 10 anos, eu estava me sentindo o máximo. A apresentação foi num clube muito chique da cidade.

E por falar em clube, como cidade do interior tem clube, né? Dia desses tive o prazer de conhecer o mais antigo do país. Fica em São Leopoldo, também lá no Rio Grande do Sul, e chama-se Orpheu – criado em 1858.

Enfim, em Arroio Grande tínhamos vários. A apresentação de balé foi no Clube do Comércio. Pena que na época não havia máquina de filmar, nem smarthpone, nem as facilidades atuais. Meu pai se virava com uma “yashika” para fotos e olhe lá.

Isso durou pouco. Muito moderno que era, meu pai comprou o primeiro videocassete da cidade. Ou o segundo. E para a alegria dele, e a nossa, logo começamos a ter em filmes todos os feitos, danças e apresentações. Ele e um amigo eram os únicos que tinham o aparelho.

Nos primórdios da tecnologia, o videocassete era uma geringonça pesada e nada prática. Para filmar era uma trabalheira. Num braço se carregava o aparelho com a fita, no outro uma máquina de filmar gigante. Mas meu pai estava lá, firme, registrando o dia a dia da família.

Não só de filmes caseiros viveu-se nessa época. Começamos a registrar festas, passeios e desfiles. Até uma peça de teatro.

Meu padrinho é metido a artista e montou uma peça teatral: “Grilhões”. Contou com a participação de vários amigos. Ainda sob o rigor da censura e da ditadura, foi corajoso em tocar em assuntos delicados como escravidão, liberdade e racismo. E não é que a peça fez sucesso em toda a região? A encenação também foi num clube que não lembro o nome. E está tudo registrado pela velha máquina do meu pai.

Esses mesmos amigos se empolgaram com a tal peça e resolveram fazer uma brincadeira, dessa vez mais suave: montaram um casamento de festa junina na AABB – outro clube!

E estava lá o elenco todo: noiva – interpretada faceiramente pelo meu padrinho; noivo, pai da noiva, padre, etc., etc. E meu pai registrando com sua parafernália toda a bagunça que foi feita.

Um ano depois estávamos mudando para Brasília. E o videocassete continuava na nossa vida. Fazíamos filmes caseiros e até registro das nossas competições de natação.

Como eu não conseguia ficar longe das ruas do interior, nas férias escolares, a primeira coisa que eu fazia era voltar a Arroio Grande.

Eu já morava em Brasília havia dois anos e o sedex naquela época não existia. Ganhei, então, a missão de levar na bagagem as fitas com nossos filmes para que os amigos de Arroio Grande pudessem ver as filmagens da capital.

Nessas férias houve por lá um festival da canção. Não recordo qual festival, porque no Rio Grande do Sul têm vários. Sei que foi em um parque – misteriosamente não foi no clube. Parque Guilhermino Dutra. Naquele tempo a gente chamava o lugar de “Prado”. Não sei hoje como é. Era um local de exposições agropecuárias, de feiras de artesanato e, naquele ano, palco de um festival de música.

Fazia uns dias que tinha um guri de Bagé me cuidando. Ou, para melhor entendimento, me paquerando.

Eu estava com meus 12 anos. Cabelo longo, aparelho nos dentes e uma inocência de doer. Mesmo morando em cidade grande ainda era garotinha do interior, com toda a beleza de assim o ser.

Durante o festival, ficamos trocando olhares e sorrisos.

Eu estava encantada. Pelo festival, pelas luzes do palco, pelo menino bonitinho que não tirava o olho de mim.

Foi então que, naquela noite, dei meu primeiro beijo. Um beijo suave, nervoso, apaixonado e marcante. Meu primeiro amor. Começamos um chamego infantil. A menina de Arroio Grande e o gurizinho de Bagé.

Desse namorico tenho boas lembranças. Algumas delas registradas em fita VHS. O tal amigo do meu pai, aquele que também tinha um videocassete, fez um filme numa tarde de sol para mandar lembranças para a família que me esperava na capital. E o namoro tá lá, registrado, com todos os sorrisos e nossas mãos dadas, em imagens que tenho medo que comecem a se apagar. Como as fitas antigas do meu pai.

FIM

* CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO BLOG "DO MEU INTERIOR" 

sábado, 6 de setembro de 2014

TATUAGEM




Foi como se um machado cortasse o pulso. Uma dor insuportável. O braço ardia em agonia. Dilacerado. O susto a fez tremer. Foi assim que despertou de uma soneca rápida naquela tarde: aos gritos.
A tatuagem no braço direito latejava. O desenho de um coração sangrando simplesmente pulsava. O sangue não era mais pintado. Era de verdade. Sujara a cama onde Estela adormecera minutos antes.
A garota de 20 e poucos anos morava sozinha. Mantinha, ela mesma, o corte de um moicano rosa feito na cabeça. Exibia uma maquiagem pesada que se acumulava na pele mal cuidada. Para pagar as despesas, fazia bico de atendente numa lojinha de roupas góticas de um amigo gringo.
Depois de gritar de dor, tomou fôlego e acendeu a luz fraca que tentava iluminar o quarto bagunçado.
– Que porra é esta?
Disse em voz alta.
– Que merda!
Praguejou ainda mais alto. Segurou o pulso direito, olhou mais de perto, mas não conseguia acreditar no que via.
Era a primeira tatuagem que havia feito na vida: um coração "retrô" vermelho atravessado por uma seta. E agora ele sangrava de verdade!
Correu para o banheiro, enfiou o braço na pia, abriu a torneira até o fim. A água caia forte em cima do desenho. Limpava o sangue mas não revelava cortes, nem mordidas de animal, nada. Era como se o coração sangrasse por conta da seta atravessada.
Estela passou a mão, esfregou a tatuagem com a esponja que estava caída no box. Era isso mesmo: a seta fazia o coração sangrar. O desenho todo se agitava.
A tatuagem estava viva.
Enrolou a toalha no pulso e correu para o guarda-roupa.
Vestia somente uma calcinha rasgada e uma blusa velha de propaganda política há muito descartada por alguém na igreja vizinha.
Ela era assim: passava uma vez por semana na igreja, não pra rezar, mas pra ver o que havia de donativos à disposição. Foi lá que conseguira dinheiro para fazer o tratamento dos dentes que no ano passado haviam caído.
Estela tinha levado uma surra do padrasto e perdeu dois dentes da frente. O mesmo sórdido que a estuprou quando tinha apenas 13 anos. Para conseguir visitar a mãe, a moça se arriscou encarar o homem bêbado. A mãe ficara paraplégica depois de um acidente de carro, onde tentava fugir do marido violento. Por absoluta falta de opção, voltou aos braços do agressor e vive à mercê da loucura do homem.
O padre da igreja é um senhor alegre, sorridente, o chamado “gente boa”. Sempre tem uma palavra de conforto para Estela. “Minha estrela”. É assim que o padre Mércio chama a garota punk cheia de piercings e tatuagens. E não se importa quando Estela "renova" o guarda-roupa com as doações.
Na ansiedade que estava, Estela pegou um vestido qualquer, pelo meio da sala, mesmo antes de chegar aos cabides minguados onde pendurava as roupas velhas. Trocou de roupa e saiu correndo de casa. De pés descalços, com o pulso amarrado na toalha. Ia em direção ao padre Mércio quando novamente sentiu uma chaga se abrindo. Dessa vez no pescoço.
Estela tinha um sol tatuado no pescoço. Que agora pegava fogo. Queimava a pele da garota. Ela gritou e voltou para casa, não conseguia andar de tanta dor. Voou para dentro do chuveiro e a água que caia em seu corpo amenizava a dor.
Não demorou muito e logo sentiu uma pontada no pulmão. Uma lança atravessava suas costelas. A espada de São Jorge lhe tirava o fôlego rapidamente. Estela tinha um dragão e o santo tatuados nas costas.
Sem aguentar o golpe, Estela caiu. No chão, sentindo a lança atravessada nas costas, gritou em agonia. Ninguém ouvia.
Foi então que, de uma das pernas dela, duas cobras começaram a rastejar pela pele. Subindo em direção ao seu rosto. Ela tinha duas serpentes tatuadas na perna.
Estela gritou mais uma vez mas já estava quase sem ar.
A noite chegou.
A porta da frente da casa estava aberta. Na pressa de chegar ao chuveiro, esquecera de trancar. E assim permaneceu até o outro dia.
Na manhã seguinte, um vizinho curioso achou estranho a porta escancarada e se atreveu a entrar para ver se estava tudo certo.
Encontrou Estela no chão da cozinha. Sem vida, com uma faca na mão. FIM

*TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO BLOG "BAR DO ESCRITOR"


quinta-feira, 22 de maio de 2014

VOTA NUM CONTO MEU?

GENTE, O BLOG "DO MEU INTERIOR" ESTÁ FAZENDO UM CONCURSO EM QUE OS CONTOS MAIS VOTADOS VÃO PARTICIPAR DE UMA PUBLICAÇÃO DA APPLE.

É SÓ CLICAR NAS ESTRELINHAS QUE APARECEM NO FINAL DO CONTO. OBRIGADA PELA FORÇA MINHA GENTE. 



http://www.domeuinterior.com.br/causos-de-assombracao/
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sexta-feira, 9 de maio de 2014

A GAROTA DA BIBLIOTECA


Trabalhava na biblioteca há pelo menos cinco anos. Conhecia cada livro, cada corredor. A rotina era sempre a mesma: destrancava janelas, iluminava o lugar, arrumava prateleiras e esperava os estudantes. 

Naquele dia chegou no horário de costume. Abriu a porta. Meio atrapalhada, cheia de livros na mão, nem acendeu a luz da sala onde ocupava a maior parte do tempo. Entrou e largou os livros em cima da mesa auxiliar, ao lado do telefone. Foram todos ao chão. A velha mesa não estava lá. 

– Ah, mas que isso? Perguntou a si mesma, já aflita.

– Será que o diretor mandou tirar a mesa sem me avisar? E quando ele fez isso? Na madrugada? Falou em voz alta, bastante irritada. 

O que achou mais estranho foi que a mesa era pesada, pesada demais para um homem só carregar. 

– Ah se alguém arrastou  pelo chão...Ai ai ai deve ter arranhado tudo! Lamentava enquanto pegava os livros.

Não encontrou nenhuma marca indicando que tenha sido arrastada. 

Interrompeu as lamúrias quando começou a ouvir as vozes dos alunos.  Em época de provas finais a biblioteca ficava cheia. Não teve tempo para tirar satisfação com o diretor. As crianças tomaram conta de sua atenção.

Rúbia era uma balzaquiana. Fizera 35 anos há pouco. Solteira, não tinha família por perto. Morava com dois gatos que achara abandonados no parque. Fez faculdade na cidade grande, mas depois de muitos desentendimentos com o ex-noivo, largou tudo e foi parar ali. Nunca mais se interessou em ter namorado e preenchia o tempo cuidando dos livros e dos estudantes. 

A escola era a maior da cidade. E a biblioteca, a única. Funcionava em um prédio antigo, precisava de reformas. As paredes estavam descascando, os banheiros entupidos e o teto cheio de goteiras inesperadas. 

Apesar da decadência, era um prédio imponente, de arquitetura gótica. Diziam inclusive que já abrigara uma catedral séculos antes. A porta da frente era pesada, emoldurada por um portal com vitrais coloridos. O pé direito era enorme. Tinha três andares e corredores escuros. Era praticamente iluminada por janelas e as abóbodas transparentes.  Muitas delas com vidros remendados e que davam um certo ar de mistério a cada canto.

No  inverno os alunos sofriam. O aquecimento central costumava dar problemas e não raro os estudantes se viam obrigados a levar um casaco extra para enfrentarem o frio. Sentavam em cadeiras de espaldar alto. 
Usavam mesas pomposas, que já sentiam a ação do tempo. Mas dona Rúbia tratava de sempre dar um jeitinho nas coisas. Levava aquecedor, deixava uma garrafa de chocolate quentinho à disposição de quem quisesse e vez por outra até presenteava os alunos com um biscoitinho caseiro.

Dona Rúbia era muito querida entre os frequentadores da biblioteca. Era tratada com respeito e admiração. As crianças gostavam de ouvir as histórias que contava de quando estava na faculdade ou das estripulias que seus gatos fazem quando ela não está em casa. 

E era isso o que ela queria da vida. Procurou aquela cidade do interior para ter uma rotina mais pacata. Ganhou o emprego quando convenceu o chefe de que além de excelente bibliotecária, sabia como ninguém administrar uma casa. Era o que ele precisava no momento: alguém que cuidasse de tudo. 

No outro dia ao incidente da mesa auxiliar, que inclusive já tinha caído no esquecimento de dona Rúbia, ela novamente chegou no horário e desta vez foram as cores que haviam mudado. Antes as paredes estampavam um tom pastel, outras quase cinza, e tijolos à vista. Agora tudo passava a ter tons cobres, marrons e avermelhados. 

– Mas como foi isso? Perguntava-se espantada. 

Os primeiros alunos chegaram ruidosos, dando os parabéns pelas mudanças: 

– A nova cor está linda, senhorita Rúbia, disse a menina de olhos grandes e cabelos longos. 

"Eu conheço essa garota?" , perguntou- se Rúbia.
  
Não. Não sabia quem era, mas como todo dia centenas de alunos passavam por ali, imaginou ser alguma das alunas mais tímidas. Nem pensou muito no assunto, nem registrou o desconforto que sentiu quando a menina sorriu e arrumou os cabelos compridos e pretos. Dona Rúbia sentiu um calafrio diante daquele sorriso enigmático. Tratou de tirar aquela imagem da cabeça e não pode deixar de pensar a que horas os pintores e marceneiros tinham ido trabalhar. 

Quando ia pegar o telefone para perguntar ao diretor sobre as cores e a mesa pesada que desaparecera, foi interrompida por um grito que vinha da ala dos livros policiais. Correu acompanhada por alguns alunos que estavam próximos. Encontraram, caída no chão, a tal menina dos cabelos negros. Imóvel, embora respirando, mas sem abrir os olhos. Jogaram água no rosto dela. 

– Afastem-se meninos, deixem eu cuidar disso, pedia aos gritos a bibliotecária. 

"O que teria acontecido?" , pensava Rúbia quase entrando em desespero, sem saber o que fazer.
Batia na mão da menina, tentou levantar a cabeça dela e de uma hora para outra a garota abriu os olhos.

Para alívio de dona Rúbia e da plateia que já se aglomerava por ali. Novamente sorria, e o tal sorriso estava ainda pior. Tinha nele um quê de maldade, lascívia e mistério. Dona Rúbia perguntou a ela o que tinha ocorrido.
– Não sei. Não lembro. Sei que estava lendo e de repente acordei no chão com várias pessoas ao meu redor.

Rúbia pensou quase em voz alta: "Como fala bem essa garota para ser apenas uma garota. Quantos anos terá?"

–  Deve ter sido um desmaio apenas, estou sem comer há horas, disse a menina já se levantando. 

A bibliotecária tentou leva-la ao hospital, mas a menina insistiu em dizer que estava tudo bem.

– Vamos, não discuta.

– ESTÁ TUDO BEM, disse pausadamente num tom alto que calou dona Rúbia.

A mulher chegou a se assustar. Um voz mais grossa, adulta tomou conta daquelas palavras.
A garota soltou o braço bruscamente das mãos da bibliotecária e saiu caminhando lentamente. Sem olhar para trás. 

"Que criança estranha", pensou dona Rúbia já se dirigindo para a sua sala.

Seguiu com o dia atarefado e não pensou mais na menina, nem nas mudanças da biblioteca.  

Uma semana depois, mais um susto. Desta vez foi ao final do expediente. Ficou até mais tarde na biblioteca, organizando a ala dos livros de história, quando novamente escutou um grito. 

"Mas eu não estava sozinha?" , pensou dona Rúbia. "Fiz a ronda e não há nenhum estudante. Quem será o engraçadinho que ficou aqui dentro às escondidas? Ah eu pego esse menino..."

E foi depressa em direção ao grito, novamente na seção de livros policiais. 

– Quem está ai? O que houve? Ouviu em resposta risadinhas abafadas. 

–  Pronto, é uma menina. Ah essas garotas...

Ao entrar no corredor escuro, não havia ninguém. Nada. Não ouviu passos, nem uma respiração. Procurou até o final do corredor, embaixo das prateleiras, atrás dos livros, e nada. 

– Ah que diabos, agora estou ouvindo vozes, falou consigo mesma. 

Caminhou novamente por toda a biblioteca, pelos três andares. Olhou em todas as direções, imaginando se a menina teria subido a escadaria. Não achou ninguém, não ouviu nem um estalar de madeira.

Quando voltou  para a seção de história, encontrou todos os livros abertos no chão. Na página 59. Um ao lado do outro. O susto de dona Rúbia foi tanto que por um instante ela parou de respirar. Entrou em pânico. Saiu correndo. Foi embora, lembrando apenas de trancar a porta pesada.

No outro dia, depois de uma noite insone, voltou à biblioteca. Entrou receosa, pé ante pé. Acendeu todas as luzes e foi direto para a seção de história. Os livros já estavam arrumados. Tentou disfarçar o nervosismo, mas acabou esbarrando em uma prateleira, quase derrubando tudo. 

– Quem arrumou? Quem esteve aqui? Falou em voz alta.

Passou em revista o prédio todo. E na estante  de livros policiais, próxima aos clássicos, um vento frio a fez arrepiar. 

"Não temos janelas na seção de clássicos. De onde vem esse frio?", a cabeça da mulher estava confusa.

Saiu dali para pegar um casaco na sala de trabalho. Quando dobrou em direção à escadaria, parou de repente: a menina dos cabelos longos e negros estava parada no final do corredor. Sem sorrir, sem piscar, sem se mexer. Estava lá , como que esperando. Dona Rúbia encarou a garota, que permanecia imóvel.

– Ei, como você entrou? Perguntou rispidamente dona Rúbia.

Silêncio.

Foi até ela e falou  novamente, ríspida:  

– Ainda estamos fechados para o público. 

A criança virou as costas e foi em direção à escada. A bibliotecária desceu antes, com pressa e se dirigiu a própria sala. Ficou esperando ouvir o barulho da porta da frente fechando com a saída da garota. Mas não ouviu nada. Ficou intrigada. Pegou o casaco e voltou ao corredor para repreender a menina:

– Eu falei sério, já avisei que a biblioteca está fechada, disse entre dentes.

Mas a menina não estava em lugar nenhum. 
Voltou correndo para a sala, dessa vez ia pegar a bolsa e ir embora. Estava muito nervosa para continuar ali. Quando entrou no escritório outro choque: todos os quadros na parede estavam de cabeça para baixo.

O ar ficou mais pesado. Novamente ouviu umas risadas. Foi direto ao telefone. Telefone que não estava mais lá. Havia sumido.

Correu em pânico para a porta da biblioteca. Tropeçou  em uma cadeira que apareceu do nada no saguão.

Finalmente se levantou, correu e bateu a porta atrás dela. Decidiu ir até o diretor. Foi a pé, rapidamente, sem perceber as pessoas que a olhavam com um ar de espanto. Ela estava chorando, despenteada, com olhos inchados, uma figura triste e louca. 

O diretor da escola era também o responsável pela biblioteca da cidade. Um senhor de idade bastante avançada, mas com uma lucidez impressionante.

Dona Rúbia contou tudo a ele de um fôlego só. Ele ofereceu água, café, e ceticamente disse com todas as letras: não há reforma alguma. Nem mudança de cores, nem redecoração, e ninguém tirou nenhum móvel de lá.
– Mas a mesa...é pesada. Quem tirou então? Perguntava, incrédula, a mulher.

– Não sei. Nunca dei autorização para quem quer que seja entrar lá fora do horário de serviço. Não há cópias das chaves e instalei um sistema de alarme impossível de entrar ou sair sem ser notado, falava o diretor por trás do bigode. 

– E a pintura? Os vitrais vermelhos? 

– Nada disso, respondeu o diretor. 

Dona Rúbia ia desmaiar ali mesmo na frente dele. Sentou-se e começou a chorar.

– Pelo amor de Deus, então me acompanhe até a biblioteca. Eu não estou louca. Eu sei o que eu vi.

O diretor aceitou. 

O caminho ate lá não era longo, mas o suficiente para deixar os dois com a respiração ofegante.
Ao longe, uma tempestade se aproximava e um vento cortava a rua por onde andavam. Chegando ao prédio, alguns alunos esperavam do lado de fora. Entraram juntos e para surpresa de todos, voava papel por todo o saguão. Os livros da biblioteca estavam rasgados. Como se alguém arrancasse folha por folha de cada encadernação. 
Os alunos curiosos queriam entrar no salão, mas o administrador tirou todos de lá. Fechou a porta, proibiu a entrada de qualquer um.  Chamou a polícia. A bibliotecária ficou embasbacada. Com os estudantes expulsos, sem saber muito bem o que fazer começou a arrumar a bagunça. Como se tivesse em transe, automaticamente, pegava livro por livro.  Logo percebeu que em todos eles havia sobrado uma única página: a 59. 
Lançou-se freneticamente a recolher tudo do chão.  A polícia chegou e impediu que ela continuasse. Os policiais procuraram por todos os lugares, qualquer pista, mas nada foi encontrado. Liberaram a biblioteca para dona Rúbia arrumar.

–Dona Rúbia, não vamos deixar que algum engraçadinho faça isso sem ser punido. Vamos achar o culpado, garantiu o diretor.

A mulher chorava. O chefe não tinha intimidades e para quebrar o clima deu ordens para que as encomendas de novos livros fossem feitas o mais rápido possível. E assim ela fez. Depois de recolher os papéis, passou o resto do dia às voltas na organização das compras. O que demorou e consumiu mais tempo que o planejado.

Ao sair do prédio, percebeu que tinha esquecido a luz do escritório acesa. Entrou novamente, dirigiu-se a sala e para sua surpresa encontrou tudo no escuro. A única iluminação era a que ela mesma havia acabado de acender no salão principal. Deu meia volta. Quase correndo, e com o coração acelerado ia em direção à saída quando percebeu um vulto próximo a ela. Olhou para trás e viu a menina dos cabelos negros. Desta vez sorria. O mesmo sorriso sinistro.
Dona Rúbia parou e voltou para falar com a garota, mas a menina saiu correndo. A mulher correu atrás dela. 

A menina parou na seção de livros policiais. Derrubou um único livro da estante e saiu correndo novamente. A bibliotecária pegou o livro do chão. E foi difícil acreditar: a garota estampada na capa do livro era a menina dos cabelos negros. O livro era "A morte de Isabel - um mistério nunca desvendado", de 1893. 
Aparentemente aquele era o único livro que havia se salvado do vandalismo das páginas arrancadas. Lembrou que a única página salva nos outros livros era a página 59 . Abriu na 57, folheou e na 59 havia outra foto da menina. Dela com a irmã gêmea Isadora. 

Dona Rúbia começou a ler o livro. Descobriu que Isabel e Isadora eram muito unidas. Isabel era mais rebelde, mais atrevida. Isadora era meiga, quieta. As duas brincavam no pátio da casa quando simplesmente desapareceram. A família procurou, a cidade inteira foi atrás, mas por um bom tempo não se teve notícia das duas. Os pais ficaram desesperados.

Um dia uma delas apareceu. Era a tímida Isadora. Estava vagando pelas ruas da cidade, toda suja de terra, ferida, com a roupa rasgada, a pele queimada de um incêndio. Não lembrava-se de nada. Foi internada e morreu alguns dias depois.
Além de estar muito fraca, cheia de cortes e feridas, pegou uma pneumonia. Mas nunca contou onde esteve com a irmã, nem por que caminhos andou nem deu pistas do paradeiro da rebelde Isabel. Os pais nunca desistiram de procurar, mas morreram sem saber notícias da filha. Isso foi há exatos 100 anos atrás. Um século de escuridão.

A polícia nunca descobriu o que houve.  Nunca encontraram o corpo da menina, nem desvendaram se houve sequestro, abuso, e porque ela estava com o corpo queimado. Virou livro por conta do mistério que envolveu toda a trama. 

Rúbia largou o livro na estante e sentiu um cheiro de queimado. As labaredas começaram na frente dela sem que houvesse ninguém para atear o fogo. E se espalharam rapidamente. Dona Rúbia conseguiu sair por um milagre. Foi resgatada já sem ar, e quando estava sendo retirada pelos bombeiros, ainda pode ouvir a risada da menina. Olhou para trás e viu uma sombra. Era ela. Estava sorrindo se escondendo atrás da prateleira.
O prédio ficou quase destruído. Não há previsão de quando vai voltar a funcionar. Assim que consegui, fui conversar com Dona Rúbia no hospital em que está internada. Ela me contou a história toda e realmente a impressão que tive é que tão cedo não sai de lá. Além dos ferimentos do fogo, os médicos diagnosticaram insanidade. Pobre dona Rúbia. 

De lá me dirigi à biblioteca para colher mais informações para reportagem que estou elaborando para o jornal em que trabalho. Faz um frio infernal naquelas salas. Ainda tem muita coisa espalhada, está tudo sujo, o cheiro de queimado ainda está no ar. Mas o que é impressionante mesmo é o frio. Andei entre os destroços, e reconheci a mesa que Dona Rúbia havia mencionado como desaparecida. Ela está lá, inteirinha, sem que uma labareda tenha encostado nela. 

Antes de chegar em casa encontrei o dr. Vasques, o delegado. Falei que estava voltando da biblioteca e que tinha encontrado um livro intacto. Ele pediu para ver e o confiscou. Acredita que possa haver alguma indicação sobre quem ateou fogo no prédio já que foi encontrado na cena do incidente.  Deixei o livro com ele e tive que explicar como consegui entrar na biblioteca. 

– Fui conversar com Dona Rúbia que me contou uma história muito esquisita. Para confirmar as histórias fui até o diretor. Ele reconheceu que a bibliotecária estava meio alterada antes do incêndio, mas não acredita que tenha colocado fogo em si mesma. Ele me deu as chaves da porta principal.  

Há poucos dias encontrei  dr. Vasques na farmácia. Tinha olheiras profundas. Perguntei como estava passando e ele não me pareceu muito bem não. Falava ofegante, parecia com medo, olhando em volta a todo instante, suava mesmo com o frio que fazia. Engoliu duas aspirinas ali mesmo, sem água, dizendo que a dor de cabeça tinha piorado desde a noite anterior. Ele não havia encontrado digitais no livro, só as minhas. E as dele, claro.
– Nenhuma? Num livro tão velho? Nem da Dona Rúbia? Perguntei.
– Nem da Dona Rúbia, me disse ele, e mais: não havia registro do livro no sistema da biblioteca. Não havia como saber quem já tinha lido aquilo. Era uma publicação velha e sem passado. 

Dois dias atrás fui até a delegacia para ver se dr. Vasques estava melhor e não, ele não havia melhorado. Em tom de confidência me contou que estava ouvindo risadinhas pelos cantos.

– A senhora tem estudo, não é?  É jornalista do maior jornal da cidade. Diga-me, eu estou ficando doente? Pareço doente? Sinto-me cansado. Ouço essas risadas, alguns sussurros, e ando esquecendo as coisas. Por exemplo, não sei o que fiz com duas cadeiras da sala lá de casa. Elas sumiram. Meus quadros amanheceram no chão. E um sofá está todo rasgado, como se apunhalado por uma faca imaginária. Eu sei que não fiz aquilo. Pelo menos, não lembro de ter feito. E agora vira e mexe vejo uns vultos no espelho. Hoje vi uma menina de cabelos longos e negros sorrindo pra mim na porta de casa. Posso jurar que era a menina do livro. Mas ela sumiu. Tenho sonhado com sangue, muito sangue. 

–Dr. Vasques, seria bom o senhor procurar um médico, respondi.

Sai de lá preocupada com ele. 

Ontem, a tragédia anunciada: a casa do delegado pegou fogo. Ele não conseguiu ser resgatado e morreu no incêndio. Os bombeiros informaram que possivelmente alguma guimba de cigarro tenha provocado o acidente. O curioso é que o delegado não fumava. Entre os destroços, encontraram apenas um livro, intacto.

FIM

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

DESEJOS E MENTIRAS


Na esquina havia um boteco improvisado. João Carlos cuidava do pé-sujo. Fazia cachorro-quente, vendia cerveja gelada e por fora fornecia maconha e cocaína, batizadas, mas muito apreciadas pelos incautos da madrugada. Apesar de tudo, tinha uma clientela grande e fiel. A rua suja, mal iluminada, fedendo a vômito, esgoto e perfume barato, abrigava prostitutas e ladrões.
Agneta chegava quase sempre depois das onze da noite. Dividia a esquina com outras três putas: duas irmãs adotivas que pintavam o cabelo de loiro, quando a grana permitia, e um travesti, vindo do Maranhão. A bicha só sabia reclamar da mãe velha, bêbada e doente que tinha que sustentar. Ali fizeram amizade.
– Ei Joca, me dá um teco ai? Te pago com boquete, que tal? Agneta tentava seduzir o pobre João Carlos, o Joca para os íntimos. O vendedor já beirava os 60 anos e tinha família enorme pra sustentar.
– Dá não, respondia. Posso adiantar um dog, quer?
– Que cachorro o quê? Quero é cheirar, encher a fuça de pó, rebatia Agneta. E ao Joca restava sorrir meio sem graça, quase amarelo.
Naquela noite, um carro caindo aos pedaços dobrou a outra esquina e dentro dois homens. Pareciam recém-saídos do trabalho em uma obra. Olhavam em volta. Tinham as mãos sujas de terra, cimento e cal. Passaram pelo ponto devagar. Pararam logo em seguida e  Andreza, ou melhor, Paulo José, a bicha do Maranhão, não perdeu tempo e se jogou na janela do carro. 
– E ai? Programinha à “trêixxx”? Faço gostoso, enfatizou.
– Não dona, a gente quer conversar com a magrela ali do canto.
Agneta sentiu todos os olhares voltados para ela. Cabelo preto, pele branca, bota de salto alto, batom exagerado e magérrima. Era ela.
– Vamos? Disse Agneta sem muita convicção.
– Vamos princesa! Em coro, responderam os dois. E foram.
O hotel era o mesmo de sempre. Quarto 520. Agneta já conhecia o gerente, o porteiro, a camareira. Já tinha transado com todos. Menos com o cozinheiro, que também era bicha e cagava pra sedução da gótica magricela que se insinuava toda vez que ia tomar café da manhã. Ocasião em que ela sempre comia dois pães com mortadela e um copo de café com um dedo de leite. Pedia um suco e ela e Paulo José, a travesti Andreza,, riam muito da tentativa do cozinheiro de provar que o “Tang” era suco natural.
Foi nesse hotel sujo e barato que ela chegou com os dois homens.
No quarto eles contaram que eram irmãos. Agneta foi sedutoramente tirando a roupa quando um deles deu-lhe um tapa na cara. Foi tão inesperado que ela desequilibrou e caiu na cama. Os dois foram pra cima dela, bateram novamente. Agneta não chorou, não reclamou, sorriu e disse:
– É isso que vocês querem? Então batam com mais força. Vamos lá! Disse com um sorriso safado. Os dois ficaram sem ação, como se o jogo tivesse acabado de se inverter. Agneta continuou provocando e eles comeram a prostituta barata como se cometessem um estupro. Com a diferença de que ela estava se divertindo mais do que eles.
Agneta gritava e gemia feito louca. Ela percebeu que os homens estavam surpresos. A impressão era de que aquilo nunca tinha acontecido antes. Ela ficou de quatro, se empinou e pediu para os dois entrarem nela ao mesmo tempo. Os dois irmãos, incrédulos, suados e babando, gozaram sem camisinha. Rapidamente. Ao terminarem o serviço apenas vestiram as calças e saíram, em silêncio.
Agneta ainda controlava o fôlego quando eles deixaram o dinheiro em cima da mesinha ao lado da cama. Bateram a porta. Agneta limpou o sangue no canto da boca. Eles bateram com muita força. O olho estava inchado. Ela fumou o último cigarro, cheirou duas carreiras da coca batizada do Joca e saiu. A gótica maltrapilha voltou para o ponto.
Lá encontrou Cassiana, uma das irmãs loiras, a gorda, e perguntou se ela tinha cliente:
– Nada. A Catilene – a irmã bonita – saiu com um playboy que disse que não tinha dinheiro pra nós duas, respondeu a colega mordendo o lábio e arrumando o cabelo.
– Cassiana, quanto você cobra? A menina deu o preço, com e sem camisinha, com e sem anal.
Agneta falou:
–  Te pago o dobro, vai comigo, agora? E ela foi.
Voltaram ao hotel, ao quarto 520 que ainda cheirava a sexo e cigarro. Transaram até de manhã. Nenhuma das duas cansou. A cocaína fazia a parte dela. Em meio à farra, Cassiana perguntou quanto Agneta cobrava.
– Só por curiosidade, explicou a gorda.
– Pra você, dou de graça! E voltaram as duas a se comer. Agneta gemia, de prazer e de dor, seus lábios estavam ainda mais roxos.  
Cansadas, dormiram. Agneta acordou com o celular tocando dentro da bolsa. A boca seca conseguiu gritar:
– Caralho! Estou atrasada. Tenho que ir embora! Acorda Cassiana.
Agneta vestiu a roupa, saiu correndo pelo hotel, o carpete velho levantava poeira. Ela tropeçou numa ponta da escada e quase quebrou o pé. A outra puta corria atrás com sapatos na mão e dobrou a esquina antes de Agneta conseguir entrar num carro e sair às pressas.
Joca guardava o dinheiro e o espólio de mais uma madrugada fria quando viu um carrão passar correndo. Dentro do tal carrão, Agneta dirigia nervosa e ao mesmo tempo tentava trocar o casaco. Joca estranhou “nunca pensei que essa puta gótica tivesse um carro desses”, pensou Joca. “Dog grátis nunca mais”, sentenciou.
Ao mesmo tempo os dois homens da noite anterior, os tais que comeram Agneta,  faziam o que realmente sabiam fazer: pediam esmolas no semáforo da rua principal. Agneta parou no sinal. Os dois reconheceram a puta e enfiaram a cara no vidro aberto do carro.
– Acho que você gostou de sentir nós dois, hein, dona? Comentou um deles.
– Ah merda, saiam da frente, gritou Agneta enquanto acelerava o carro.
Ela conseguiu sumir na rua em alta velocidade. Os dois homens quase foram atropelados, chamando a atenção de quem estava por perto.
A respeitável doutora Agneta chegou atrasada no hospital onde era a médica principal do ambulatório. A secretária estranhou o cabelo desgrenhado e os enormes óculos escuros, que tentavam esconder o rosto pálido e machucado. Optou não comentar nada, a doutora Agneta era muito mal humorada. Herdeira de um dos homens mais ricos da cidade trabalhava no hospital público só por diversão, ou punição a si mesma - como gostava de dizer. E por prazer mantinha os programas como principal prostituta do boteco do Joca.
O dia passou normalmente, apesar da dor depois da surra. Agneta não pensou nem em Cassiana, nem nos dois homens sujos de cal.
Foi para casa descansar e no outro dia conseguiu chegar no horário correto. O expediente começou com a Dra. Agneta lendo o jornal enquanto comia croassant e bebia capuccino na cafeteria:  "Polícia finalmente encontra os irmãos que torturavam, esquartejavam e enterravam as vítimas em lápides improvisadas de cimento e pintadas de cal. As vítimas eram prostitutas que apanhavam até a morte. Os homens foram denunciados por um vendedor de cachorro-quente que reconheceu os dois quando tentavam roubar o carro de uma importante médica da cidade".
Agneta engasgou com o café e do lábio escorreu mais um fio de sangue.

FIM

ORIGINAL PUBLICADO NO BLOG BAR DO ESCRITOR

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

eu no jornal da minha terra

se tem uma coisa que me deixa emocionada é ver meus trabalhos espalhados por ai. e quando sai na página do jornal da cidade onde nasci, é de morrer de orgulho. vejam ai. jornal meridional, de arroio grande. eu, com orgulho. 


foi um texto que saiu no blog do meu interior. aqui:
http://www.domeuinterior.com.br/aprendendo-sobre-diferencas/


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

*A NOITE MISTERIOSA DOS MORTOS-VIVOS*

Peguei no sono novamente. E mais uma vez fui sugado para um mundo de trevas e medo. Como das outras vezes, fazia frio. Um nada que machucava a alma. Não sei se estava de olhos abertos ou fechados. A escuridão era tamanha que tanto fazia enxergar ou ser cego. E eu ali novamente. Mas onde é ali? Estou perdido no silêncio. Um vazio infinito. Medo. Pavor e solidão. Uma solidão tão dolorida, que só restou chorar. Fiquei paralisado, como que suspenso no ar. Tentei ouvir alguma coisa, qualquer coisa. Nada.
Até que ao longe ouvi um sussurro. Tentei falar, mas minha voz não respondeu. Fiquei naquele breu o que pareceu uma eternidade. Aquele limbo estava me matando. Se eu pudesse sentir mais alguma coisa além de medo seria meu suor. Tenho certeza que escorria por todos os poros do meu corpo. Corpo? Eu não sentia meu corpo. Nadava no nada.

Quando o mais puro terror tomou conta de mim, pensei que iria morrer sufocado. Não havia ar. Puxei uma respiração que imaginei ainda ter e não veio. Sufoquei. Entrei em completo surto e acordei.

Acredito que gritei ao acordar. Naquele ônibus noturno, pequenos pontos de luz iluminavam o interior do veículo. O carro chacoalhava de um lado para o outro numa velocidade acima do razoável. E ninguém acordou. Somente eu. Ou pelo menos eu não ouvia ninguém. Como tentava me recuperar do maior medo que já havia passado na vida, nem percebi que ao meu lado, o banco antes ocupado por um menino chorão, estava vazio. A mãe do garoto já tinha tentado de tudo para acalmar a criança. Cantou, brincou, brigou, e por fim meteu uma mamadeira nas mãos do menino, que gordo, se engalfinhou naquilo. Nem a mãe, nem o garoto estavam por ali.

Sequei o suor da testa, tentei arrumar os cabelos que despenteados deveriam estar dando a impressão de que eu era um maníaco endiabrado. Se fosse possível um espelho, eu veria a própria face da morte em meu rosto. Minha língua seca grudou no céu da boca. Meus lábios estavam rachando. Minha roupa amarfanhada exalava o cheiro forte do medo. Limpei a garganta e olhei ao redor. Não só os bancos ao meu lado estavam vazios como os da frente e os de trás. Levantei subitamente com o susto de não ver ninguém. E o pavor mais uma vez tomou conta de mim. Eu estava sozinho naquele ônibus. Sozinho? Imediatamente fui procurar o motorista que não estava lá. Me vi em alta velocidade em um ônibus desgovernado dirigido por ninguém. Quase gritei. Corri até o volante na tentativa de colocar o carro no rumo, mas só consegui derrapar e bater com força nas rochas que ladeavam a estrada. Com forças não sei de onde, deixei o ônibus em linha reta. Aos poucos os freios foram parando aquela enorme máquina vazia. Apenas a lua dava cor à estrada. Escuridão que também tomava conta de mim. Quando finalmente estacionei não tive reação. O que havia acontecido? Onde estava todo o mundo? Andei por entre os bancos e só vi os objetos pessoais dos passageiros, alguns largados de qualquer jeito. Tão de qualquer jeito que muitos se quebraram. Alguém levara todos embora? Mas como? Foram todos abduzidos? Não, seria uma explicação muito fora da imaginação coerente de um homem letrado como eu.

Desci do ônibus e fui andando estrada à fora, sem escutar uma alma. Estava frio. Ato contínuo, me encolhi. Um peso caiu sobre mim, como se mil corpos sentassem em meus ombros. Andei devagar, olhando para todos os lados. Apressei o passo, ensaiei gritar, chamar alguém, mas foi inútil. O ar estava rarefeito e os sons prejudicados. Ao longe vi uma luz tremulante. Uma tocha? Sim. Fogo. Corri em direção a ele. Nem percebi que saia da estrada e me embrenhava numa floresta fechada. O mato alto batia em minhas pernas. Feridas se abriam. Lanhos não muito profundos deixavam um pequeno rastro de sangue por onde eu passava.

Fui em direção à luz sem ao menos raciocinar. O fogo se aproximava e percebi que não era apenas uma tocha, mas várias. Muito próximo do clarão que as chamas formavam parei minha corrida. Tomei fôlego, minhas pernas doíam, meus braços, meus ossos, músculos. Tudo em mim parecia moído. E a dor era excruciante. Respirei e olhei com mais atenção ao que se passava na clareira. E ai eu morri. Ou praticamente. Todas as pessoas que se perderam no ônibus estavam ali, mas não eram mais humanas. Não se podia chamar aquilo de humano. Eram uma espécie de mortos-vivos.

Desligados do mundo, alheios, sangrando, babando, machucados e imóveis. Seguravam as tochas e olhavam o além com olhos rasos, furados, carcomidos, mortos.

– Meu Deus, eles estão mortos, pensei comigo mesmo. Até o menino chorão. Depois de alguns segundos eternos, desnorteado fui andando para trás devagar, sem nem respirar, sem fazer barulho, sem ao menos piscar. Eu não conseguia ter pensamentos coerentes. Tudo que se passava na minha mente era que tinha que voltar para a estrada, para o ônibus. Precisava ir embora dali e me salvar.

Zumbis. Como? Por quê? E por que não eu? Não entendia. Andei de ré até uma distância que julguei suficiente para começar a correr sem ser notado. Mas o azar fez com que eu pisasse forte em um galho velho. Foi o suficiente para um de aqueles monstros encontrar meus olhos. Em nossa troca de olhares eu gelei. Senti todo o ódio, medo, fome, crueldade que tomava conta daquele corpo. E ele gritou. Na verdade o monstro grunhiu. E todos eles olharam em minha direção.

Corri. Corri como nunca, como um louco. Corri como se corre da morte. Sentia aquelas bestas nos meus calcanhares. Bati em árvores, pisei em poças de água e lama. Lágrimas molhavam meu rosto já sujo de terra daquela maldita floresta. A noite parecia estar ainda mais fechada. Cheguei à estrada. Fui em disparada em direção ao ônibus e ao chegar na porta do carro ela estava fechada. Empurrei com toda a força que ainda achei em meu corpo. Uma daquelas mãos cadavéricas conseguiu me alcançar. Eu lutei para jogar longe aquele saco de ossos, mas não consegui. Estava desesperado, até que num chute abri a porta e cai ensandecido me esparramando pelo piso. Fechei a porta de qualquer jeito. Empurrando com força enquanto os dedos daqueles mortos insistiam em lutar. Finalmente a porta trancou.

Pulei para o banco no motorista e tentei desesperadamente dar a partida, mas a bateria estava gasta. Girei a chave e nada. Continuei tentando. Um mar de gente semiviva rodeava o ônibus. De todos os tamanhos, idade, sexo. Batiam famintos nas janelas. Quase rosnavam. Se jogavam nas laterais do ônibus e se desfaziam em podridão. Uma janela quebrou. Meu pânico só aumentava e finalmente o motor resolveu funcionar. Sai em alta velocidade. Atropelei o que vinha pela frente. O menino chorão explodiu no vidro da frente.

Sangue escorria pelos vidros. Eu precisava sair dali. Dirigi quilômetros cegamente tendo a lua para iluminar meu caminho. Perto de uma estalagem, um hotel velho, parei. Mas um sentimento de alerta já tomava conta das minhas decisões. Desci do ônibus com cautela. Corri para trás da parede dos fundos do prédio, e espiei pela janela. Ninguém. Entrei pela portinhola protegida por uma tela e atrás do balcão de atendimento encontrei uns óculos e uma bíblia caídos no chão. Quem quer que por acaso estivesse por ali tinha abandonado tudo e rapidamente. Ou se escondeu ou virou monstro.

As luzes estavam acesas o que facilitou minha busca por explicações, comida, qualquer coisa. Encontrei uma garrafa de água pela metade e rasguei minha garganta ao engolir em grandes goles o que restava.
A sala da recepção do hotel era minúscula. Um corredor escuro se abria logo ao lado da máquina registradora. Todas as portas fechadas. Eu não queria saber o que havia atrás delas. Mas precisava. Na primeira porta que abri encontrei um quarto completamente sujo de sangue. Respingos de restos humanos caiam do teto. Sangue pingava e um cheiro de podridão tomava conta do lugar. Fechei a porta imediatamente, com náuseas difíceis de controlar.

Fui para o outro quarto e o único cheiro era o de mofo que já estava lá antes mesmo de se pensar na existência de mortos-vivos. No terceiro quarto, também vazio, só olhei de relance. Ao fechar a porta ouvi lá dentro um som abafado. Um baque surdo. Meu coração acelerou de tal forma que veio até a boca. Abri novamente a porta e acendi as luzes. “Tum”. De novo aquele barulho dos infernos. Fui até o guarda-roupa lentamente. Como que esperando que pulasse lá de dentro o maior e mais sanguinário dos monstros de todos os tempos.

Quando minha mão encostou na maçaneta do armário, novamente o “tum”. Pulei e olhei para trás. Vi um rosto me encarando. Gelei. Demorei a perceber que era a minha própria figura refletida em um espelho. Eu estava sujo de sangue. Tomado pelo medo. Voltei a me concentrar no armário. Num fôlego só abri a porta e lá estava ela. Uma menina de pouco mais de oito anos, encolhida e abraçada a um urso velho e encardido. O barulho era ela tentando abrir a porta.

Nos encaramos e ela chorava. Me inclinei diante dela e menti:

- Vai ficar tudo bem, disse calmamente.

Ali mesmo eu fiquei. Esqueci de ver o último quarto no final do corredor. Tranquei a porta frágil do quarto onde estava. Escorei uma cadeira na tentativa de dificultar o que quer que forçasse a entrada. Puxei a menina de dentro do armário. Tentei secar as lágrimas dela, mas ela não deixou. Perguntei se estava sozinha e ela não respondeu.

O banheiro imundo de secreções ainda humanas e cheirando a mijo tinha toalhas encardidas penduradas. Peguei uma daquelas e limpei meu rosto. Lavei meus olhos, minhas mãos. Eu estava muito machucado e sujo.

A menina sentou em uma das camas e estava em estado de choque. Eu não ouvi mais nada. Nem lá fora, nem aqui dentro. Revistei o quarto todo, e achei estes papéis na pequena escrivaninha do canto. Escrevo neste momento minha história, sentado no chão, sem saber se alguém vai conseguir sobreviver a isso tudo. Esta noite eu preciso esticar minhas pernas, curar minhas feridas, mas não posso cair no sono. Se eu dormir corro o risco de parar mais uma vez naquele local onde mora o medo. Onde flutuei sem ar na escuridão. Se bem que agora não faz a menor diferença. O medo está aqui comigo. Lá fora escutei um grito abafado. Eu e a menina nos olhamos e decidimos em silêncio deixar pra lá. Estamos cansados, famintos, em pânico. Somos um nada. Nos encolhemos. Ela na cama e eu aqui no chão. Vamos ficar assim até o dia amanhecer. Ai pensaremos no que fazer.

sábado, 11 de janeiro de 2014

*A BRIGA*


* texto baseado livremente em lendas, causos e folclore do norte do país. 

Depois do terceiro copo de tarubá já se sentia embriagado.  A bebida mais vendida no bar era feita por ali mesmo e tinha esse poder sobre ele. Assim, meio zonzo, foi até a mesa mais escondida. Sentou e ficou observando o ambiente. O dono da espelunca, seu Ribamar, corria de um lado para outro pra dar conta de atender a clientela. Última noite de lua cheia, o vai e vem era grande. Pegou mais um cigarro, e com as roupas amarrotadas e inteiramente molhadas de suor, o lobisomem não passou despercebido. Quase todo o  mundo que passava lançava um olhar de curiosidade.
– Quem é? Perguntou o famoso senhor Boto Pink Dolphin, também conhecido por Botinho.
 Detetive do sul, respondeu Ribamar entre dentes.
Botinho andava mal de saúde. A idade estava chegando, com ela muitas dores nas costas e nas pernas. O olhar cansado denunciava um mal ainda pior: estava apaixonado. As noitadas de festa e conquistas, cada vez mais escassas. Ele só pensava na amada. O dia amanhecia e nem queria voltar para casa. Naquela noite tomava uma bebida quente, coçava as tatuagens e esperava o tempo passar, meio encostado no balcão.
 Seu Botinho hoje tem festa na casa de Iaiá, vai não?
 Vou não Ribamar, vou ficar aqui mais um tantinho pensando nos cabelos de Iara, aquela ingrata. E assim passava mais uma noite a lamentar o amor não correspondido.
Já o tal lobisomem, o detetive do sul, continuava registrando o movimento. O lugar estava cheio de fumaça, dos cigarros, das comidas e das assombrações que davam o ar da graça sem se preocupar com a bagunça que causavam.
Neste momento chega o Bôita. Apelido que Boitatá ganhou dos mais íntimos. Bôita já entrou furioso com os primos.
 Eu já falei pra tia Zelina que ela tem que dar um jeito no Honorato e na Maria Caninana. Estão lá os dois brincando de “sou-maior-que-você” de novo. Conclusão: está o maior reboliço na praça, tem gente correndo pra tudo quanto é lado pensando que o mundo vai acabar, que o terremoto chegou. Já avisei. Não adianta. Ela mima demais aqueles dois e é nisso que dá.
Ribamar nem respondeu aos resmungos de Bôita. Estava ele próprio com problemas suficientes para resolver depois que o Saci sumiu com o estoque de petiscos do bar. Logo os clientes estariam famintos e pra comer? Nada. O Saci tinha feito das suas. Só não desapareceu com a bebida porque metade do bar ouviu aquela risadinha infame. Acabou então se entregando, mas antes quase ateou fogo na cozinha quando saiu pulando feito doido de lá de dentro. Ainda perdeu o gorro pelo caminho.
Gritos histéricos saíram da mesa próxima ao banheiro. É que o Caipora acabara de descobrir que a montaria dele era na verdade Matinta Perera. A velha tinha pregado novamente uma peça nele. Ficou furioso. A feiticeira fingira ser o porco que levou o indiozinho até o bar. Ele quase morreu de susto quando ela se revelou. Pior foi saber que tinha perdido o transporte de volta pra casa.
 Sua velha nojenta. Ainda faço você e seu assobio se perderem para sempre na floresta.
E lançou o olhar em brasas pra cima dela, tão violento que o vestido preto e já muito sujo de Matinta chegou a dar uma chamuscada, mas nada que tirasse o bom humor da bruxa. Caipora logo pediu uma cachaça e mais cigarros. Ficou num canto amuado.
Enquanto isso, o detetive pediu outra bebida. E já olhava o relógio desconfiado quando entra ela, deslumbrante, de vestido branco quase transparente, cabelos loiros longuíssimos, andar lânguido. Uma tristeza embelezava o rosto daquela mulher. Foi andando vagarosamente em direção a ele.
 Boa noite detetive, falou numa voz de tirar o fôlego. Ah esse sotaque espanhol caliente, pensou o detetive.
 Boa noite. Achei que tivesse desistido do encontro, comentou o detetive entornando o copo , já com ar de insatisfeito.
 Imagina, é claro que eu não isso por nada, seduzia a mulher.
Maria Chorona. La Llorona, a bela da meia-noite. Vinha direto do México para dar notícias desastrosas:
 O pessoal da neve me garantiu que é verdade a vinda de Big, comentou a loira já comendo algumas frutas que Ribamar achou escondidas longe do alcance do Saci.
 E quando será? Perguntou o lobisomem.
 Em breve. Assim que a última colheita de açaí terminar, respondeu. O velho Itaki já está informado e vai adiar ao máximo o fim do trabalho.
Curupira vai ficar furioso, pensou o detetive. Vamos ter que segurar o chefe à força, quase falou em voz alta.
 Está aqui, como o prometido, disse o lobisomem. E pagou a informação com o mais lindo colar de jade já feito naquelas bandas. - Veio direto do cofre de Muiraquitã. O safado do batráquio exigiu doze donzelas ao chefe, no ano passado, confidenciou.
Deslumbrada, a mulher deixou a mesa e foi embora.
Bem ali ao lado, Jurupari Júnior falava com uma moça tímida. Gritava, na verdade.
 Dona, eu já falei mais de um milhão de vezes, eu preciso falar com Tupã. Questão de vida ou morte. E um trovão cortou a noite.
O detetive não ficou para ouvir o final da conversa. A notícia de que Big estava chegando o deixou muito preocupado, afinal o gringo não brincava em serviço. Pé-Grande em pessoa estaria por ali em poucos dias. Viria para brigar por mais terra.  Queria invadir as florestas do Curupira pelo simples prazer de ter mais e mais. Estava na cara que aquilo não ai dar certo. Vai dar confusão, pensou.
O lobisomem saiu do bar apressado para dar as notícias ao chefe. Sem nem prestar atenção à lua que saia brilhante de trás das nuvens, atravessou a mata correndo. Com receio de se perder foi marcando as árvores por onde passava. Tinha medo da ira do patrão. A sorte foi que após dar a notícia da vinda do Pé- Grande, Curupira não prestou atenção em mais nada. Ficou nervoso, endiabrado. Seus cabelos mudaram imediatamente para um tom mais intenso que seus olhos de fogo. O duende caminhava de um lado para o outro, quase tropeçou nos pés virados. Arrancava os pelos de todo o corpo. O detetive nunca antes vira o chefe tão furioso.
 O que pensa aquele sasquatch? O que quer fazer nas minhas matas? Não está satisfeito em conquistar os territórios gelados e quer invadir meu lar? Vem pra cá infestar tudo com aquele cheiro horroroso insuportável? Praguejava. - Não. Nunca, nunca, gritava com ódio o Curupira.
O detetive perguntou ao chefe se precisava de algo mais. Foi dispensado. Achou o caminho de casa e foi descansar, apesar dos sussurros e assobios que o acompanharam durante toda a noite.
Na manhã seguinte, tudo parecia normal. Parecia. A floresta tremia todinha. Logo se pensou em briga na família Cobra Grande novamente. Mas Maria, Honorato e a tia Zelina foram os primeiros a surgir sem entender o que estava acontecendo. Eis que Big chegou antes do previsto. Veio derrubando árvores, pisando em tudo, deixando marcas pelo caminho.
Curupira logo chamou o exército que havia formado. Desde Tupã até ao Uirapuru, todos juntaram forças para defender a floresta. Big estava sozinho. Finalmente quando ficaram frente a frente, a Mula Sem Cabeça chegou correndo. Com ela vieram os pirilampos, as fadas, os hobbits, os elfos, até os trolls e as crianças estrangeiras de Avalon. Sem fôlego, a Mula gritava:
 Parem tudo. A Árvore da Vida está em perigo.  Os homens brancos estão chegando.
O silêncio tomou conta da floresta. Deuses, semideuses, duendes, cobras, lobisomem, mulas, animais, todos, todos congelaram. Ninguém sequer piscava. Esqueceram imediatamente as diferenças, as muitas línguas que falavam e olharam ao mesmo tempo para Curupira. Até o sasquatch recém-chegado ficou apavorado.
Foi assim que todos se uniram. Saíram em marcha em direção à clareira que abrigava a Árvore da Vida. A briga estava apenas começando. 

FIM 

domingo, 8 de dezembro de 2013

O MISTERIOSO CASO DA MENINA QUE DESAPARECEU




Minha querida Florence** escrevo com a intenção de lhe pedir uma visita. Sei de suas andanças pelo exterior, que sua vida está muito ocupada, mas preciso, aliás, precisamos, eu e meus vizinhos, de todo o seu conhecimento. A propósito devo dizer que "devorei" seu livro, parabéns, você realmente é genial. Estão lhe chamando elogiosamente de "o pesadelo dos fantasmas". Você merece todas as honras. Sabemos que você desenvolveu técnicas assustadoramente eficientes de dedução e lógica para descobrir fraudes de pessoas mal intencionadas que tentam enganar quem acredita em coisas do além. Justamente essa sua capacidade de desvendar fenômenos paranormais se tornou nossa última esperança.

Minha cara, só você pode nos ajudar. Confirmei sua vocação por um senhor muito agradecido que, cordial e espontaneamente, me contou que você conseguiu desvendar o mistério dos meninos que andavam assombrados naquele orfanato. Detalhou que você descobriu a tramoia e o esquema todo do golpe que a cozinheira e o jardineiro queriam aplicar nos donos da casa onde funcionava o abrigo para os órfãos. Então, minha querida amiga, o quanto antes você puder vir ajudar a desvendar mais um mistério, muito ficarei agradecida.

O fato se dá na cidadela onde minha ex-cunhada mora...lembra dela? A espevitada Vanusa? Aquela que tinha uma mania horrorosa de se meter na vida alheia? Pois veio dela a notícia de que uma moça de nome Antônia desapareceu. Antônia é muda e mora em um casebre pobre no final da rua da Vanusa.
Antônia vivia com outros seis irmãos, cada um com um problema de saúde pior que o outro. Ela criou todos sozinha, mesmo muda e analfabeta. Pobre garota. Nunca consegui imaginar o tamanho do sofrimento de ficar órfã aos 16 anos e tomar para si a responsabilidade de criar os irmãos. Mas ela lutou muito e se mantinha relativamente bem até alguns dias atrás.

Na verdade ela não é a primeira a sumir. Pelos meus cálculos já seria a décima terceira mulher desaparecida. Quer dizer, desde que começamos a prestar atenção, pode ter mais. O sumiço de Antônia só foi percebido porque todos sabem da dificuldade daquela família e muitos ajudam como podem, levando alguma muda de roupa, ou comida. Alguns até tentam se aproveitar da pobreza e necessidade da menina fazendo as mais indecorosas propostas. Mas nunca se soube de ela ter aceito prestar serviços, digamos, ortodoxos, para conseguir criar os menores. Nunca se falou nada sobre a garota se prostituir, ou se meter em confusão com drogas e afins. Tomei conhecimento que certa vez o homem que comanda o jogo clandestino na cidadela se interessou em levar a menina pra casa dele, sem pagar salário, numa espécie de apadrinhamento, onde ela prestaria serviços domésticos e eventuais serviços sexuais, com a condição de deixar os irmãos a cargo do Conselho Tutelar. Dizem que ela teria expulsado o homem de dentro do barraco proferindo guinchos e grunhidos.

Como ia dizendo, muita gente colabora com a família, entre elas dona Matilde, que mora ao lado do casebre. Ela foi levar um frango assado para os meninos e encontrou a casa toda trancada. Bateu e ninguém atendeu. Como a casa é bastante velha, ela logo pegou um pedaço de madeira, uma tora de lenha ali de perto, e bateu tanto na parede que conseguiu fazer um buraco no material podre que sustentava a casa. Entrou por ele e encontrou tudo de cabeça para baixo. Os dois bebês menores, choravam copiosamente no berço. Andrey, o segundo mais velho, depois de Antônia, caminhava atônito de um lado para o outro com uma expressão de horror. Os outros três ficaram apenas sentados no chão olhando para a parede, como que hipnotizados de medo e susto.

Dona Matilde demorou para conseguir a atenção dos meninos. Pegou os dois menorzinhos e levou para sua própria casa onde imediatamente providenciou uma roupa para eles. Chamou a filha mais velha para olhar as crianças enquanto voltava a fim de resgatar os outros irmãos.

Levou todos para dentro do banheiro para dar um banho demorado nos meninos encardidos. O horror é que dona Matilde descobriu que eles estavam todos sujos de fuligem e sangue.

Quando a água quente bateu no corpinho deles, começou uma gritaria como se fosse água benta caindo sobre demônios. Foi como se todos deixassem um transe e se dessem conta de onde estavam. Demoraram a aceitar que dona Matilde terminasse o banho.

Minha ex-cunhada foi logo ver o que havia acontecido e quando chegou até a casa, as crianças já estavam limpas e sentadas à mesa esperando a sopa que dona Matilde esquentava no fogão à lenha. A velha estava apavorada. Contou que os meninos não diziam coisa com coisa, que falavam que a irmã tinha ido embora para sempre. Contou sobre o sangue que se espalhou pelas roupas, cabelos, mãos.

Os meninos comeram e foram deitar embalados por um cansaço quase adulto. Pobres crianças minha querida Florence. Pouco depois todos acordaram ao mesmo tempo, aos gritos, chamando pela irmã Antônia.

A polícia foi ao local e não conseguiu descobrir nada. Não há vestígios de fuga, nenhuma roupa foi levada, não há indício de sequestro. A menina é tão pobre e doente que não haveria motivos, não é mesmo? Os pequenos falavam de um monstro vestido em uma roupa de monge, alto e sem rosto. Mas não havia sinal de arrombamento, nem de violência.

As crianças passaram a delirar. Diziam que o sangue era da irmã, que o monstro as obrigou a cortarem ela. Mas não sabiam dizer o que foi feito com o corpo, nem como esfaquearam a irmã.

O delegado desconfia que elas estejam inventando essa história. O que é bastante possível, sabe como são esses meninos, mas eles juram seriamente e com tal veemência que foi obra do tal monstro, que não há como desconfiar deles por mais tempo.

Florence, não há como ter sido alguém de fora da casa, estava tudo trancado, por dentro! As janelas não abriam há anos, a própria dona Matilde já havia conversado com Antônia sobre o perigo da casa não ganhar ar fresco. E a casa estava completamente revirada, destruída mesmo, como se fosse vítima de um furacão. Criança alguma teria força para jogar as cadeiras todas em cima do armário da cozinha. Homem nenhum teria força sozinho para quebrar aqueles móveis velhos e pesados. Para você ter uma ideia, a mesa da sala era de madeira maciça, reaproveitada de uma obra, e foram necessários cinco homens pra carregá-la até lá, foram cinco operários bem fortes, e a mesa simplesmente virou pó. A polícia inclusive conversou com esses cinco homens, que poderiam até terem atacado as crianças, mas todos tinham explicação de onde estavam, tinham testemunhas e foram descartados como suspeitos. Até o homem que certa vez foi expulso por Antônia foi interrogado, mas também tinha provas de sua inocência.

O impressionante que essa destruição toda não fez barulho, nenhum vizinho ouviu nada. Os meninos estão traumatizados. Não dormem mais no escuro, e parece que conversam com alguém que não está lá. E Florence, dona Matilde conta que tem visto luzes onde não há eletricidade e ouvido vozes quando não há ninguém no quarto. Ela acha que as crianças estão querendo assustá-la, mas com que propósito? As pobres criaturas estão apavoradas, só choram e se fecham num mundo delas, mantendo silêncio por horas.

Os dois bebês estão bem, parecem não ter sofrido nada, embora os dois apresentem manchas de queimadura na mesma parte do corpo: abaixo das costelas. São manchas com o mesmo desenho. Parecem queimaduras, mas elas não sentem dor.

As crianças ainda estão provisoriamente com dona Matilde, mas a pobre velha está definhando, parece doente e parece que a qualquer momento vai entrar no mesmo estado catatônico dos meninos.
Com esse sumiço a cidade ficou em polvorosa, não se fala em outra coisa. Aos poucos todos chegaram à conclusão que vez por outra some uma garota na cidade. E fazendo as contas, nos últimos tempos foram 13. Ninguém sabe explicar. Os corpos nunca apareceram, e as desaparecidas nunca deram notícias. O fato é que todas elas sumiram misteriosamente. E fica ainda pior quando os detalhes de cada sumiço são revelados. Todas as testemunhas se lembram de um fato que se repetiu: as manchas nas costelas dos bebês das famílias cujas meninas sumiram.

A cidade está em pânico. Falamos de fantasmas, extraterrestes, serial killer, demônios e de Deus. Seria uma alucinação coletiva, uma histeria? Ninguém acha explicação, nada. Eu estou temendo pelas crianças. Andrey começou a falar em uma língua desconhecida. Juro que nunca ouvi, não é latim, nem italiano, nem francês, ninguém entende o que ele fala. O garoto tem lapsos de memória. Diz coisas que não se lembra de ter falado e, às vezes, conversa e ri sozinho. Entre os irmãos doentes, ele é o que manca, tem uma perna maior que a outra, e Florence, ele está deixando de mancar. Já não usa mais as muletas.

Pobres crianças. Precisamos da sua ajuda. Diga que vem, por favor? O Conselho de Segurança da Prefeitura avisa que tem verbas para sua passagem e estadia, nada de muito luxo, mas agradece antecipadamente se você puder colaborar com esse mistério. Também ofereço com prazer minha humilde casa para sua permanência durante a visita.

Estou bastante preocupada, semana passada mudou para aqui perto mais uma família, com duas meninas menores, e um bebê. Ontem a mãe das crianças saiu correndo de casa, carregando o filho no colo porque o menino estava com uma mancha igual a uma queimadura nas costelas. Ninguém da cidade teve coragem de comentar com ela sobre os desaparecimentos e sobre o caso todo.

Venha Florence, o mais rápido que você puder. Aguardo seu retorno. Um grande abraço fraterno, com admiração e esperança, sua M.R.

* escrito originalmente para o blog “cartas de madame red”

** Florence Cathcart é um personagem do filme “O Despertar” (The Awakening/ Reino Unido 2011). No longa, ela aparece como escritora do livro “Vendo através dos espíritos”.