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terça-feira, 27 de agosto de 2013

de que adianta sonhar?

– vamos dançar? perguntou ela tímida para o garoto ao lado.
– não posso. sou um sonhador.
– e sonhador não dança?
– não. sonhador sonha.
– ah. pois eu danço e sonho.
retirou-se, com pena do menino bonito que sonha, mas não dança. nem perdeu tempo explicando que o sonho é a dança colorida da alma. 



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O MONSTRO


entrou correndo no quarto. ofegante, fechou a porta. podia ouvir lá fora o monstro grunhindo.
a porta mal aguentava segurar a criatura que gritava por ela.
olhou-se no espelho. levantou a arma e atirou. na cabeça.
morreu ali na enfermaria do hospital. com medo.
embaixo da cama o monstro se escondeu do tumulto.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

O LOUCO


ele olha pela janela do quinto andar. o pensamento se perde entre as árvores frondosas que escondem o prédio do sanatório dos olhos das ditas pessoas normais. o asilo, o depósito de rejeitados, o lugar carcomido pelo tempo mantém um inverno eterno. 
velho e doente, o homem sente frio. está louco e sujo. uma mosca passa por ali e vai para bem longe. até ela o despreza.
o cheiro de mijo e excrementos arde os pulmões. a insanidade que mora embaixo do teto podre sai das entranhas daqueles esquecidos. e ele ali, olhando pela janela. tenta sentir a brisa fraca que acaricia as folhas das árvores. quer ter asas. quer voar. como a mosca e seu desprezo. sobe então no parapeito e se vai. ninguém reclama. nem do louco, nem da mosca nem da janela quebrada. 





sexta-feira, 26 de abril de 2013

a mosca ou o único cliente da noite


a mosca zunia em torno da lâmpada velha e suja. as cinco mesas do boteco infame estavam vazias. a pouca luz não escondia a gordura entranhada nos copos e toalhas plásticas nem as paredes descascadas e rachadas. no ar cheiro a mofo e mijo. o dono da pocilga era um gordo fedorento que mastigava o palito usado e limpava o balcão com um pano sórdido. e lá estava o único cliente da noite encostado no tal balcão. do rádio de pilha em cima da prateleira, ao lado das garrafas, saia uma música antiga que falava de um bordel e suas putas tristes. o copo de cerveja do único cliente estava pela metade. ele tira do bolso da camisa um cigarro. pede fogo. ganha uma caixa de fósforos. acende o cigarro, dá uma tragada longa, acaba com a bebida num gole só. puxa o revólver do bolso de trás da calça jeans e dá um tiro no dono do bar e outro na própria cabeça. ficam ali os dois estendidos no chão imundo. lá fora apenas um cão late ao longe. a música no rádio continua. a mosca desiste da lâmpada velha e pousa na boca do único cliente da noite. 

quinta-feira, 21 de março de 2013

A PIOR DOR DO MUNDO


abriu os olhos na estrada deserta e viu o sol dando espaço às nuvens de chumbo. o carro de cabeça pra baixo parecia pedir colo ao horizonte. o sangue se espalhando pelo asfalto. ela não se lembra de nada, nem da música que há pouco  incomodava, nem do cigarro que  lhe queimara os dedos, nem das lágrimas insistentes. quisera sumir o mais rápido possível daquele ódio que lhe consumia as entranhas. depois da discussão, acelerou o carro sem olhar para trás. fez a curva no primeiro atalho que encontrou. a velocidade e a tristeza pegaram carona. agora, estirada no chão procura forças. se arrasta até o acostamento sentido todas as dores do mundo. menos a perna direita. essa ela não sente. porque não está ali. começa a engasgar com sangue e para de pensar. – eu te amo, grita em sussurro pra ninguém ouvir. silêncio. essa é a pior dor. a certeza de nunca mais ver seu amor. entre as lágrimas, vai-se com o vento.

quarta-feira, 20 de março de 2013

o fantasma


sentia o perfume das flores. flores e velas. estava deitado...morto? não mexia nem pé, nem mão, nem boca. só percebia o cheiro. e ouvia: vozes, choros, murmúrios e a escuridão. perdido, não sabia como tinha ido parar ali. gritar? nem pensar. estava com medo e inerte. de repente, o pior: fecham-lhe o caixão, os olhos e a alma. foi-se para a solidão eterna. até hoje não entendeu que daquele momento em diante passava a ser apenas um fantasma,  assombração de si mesmo.