quarta-feira, 20 de novembro de 2013

*O MORTO*



**ESTE TEXTO É A CONTINUAÇÃO DO CONTO "O MORTO" DE LUCIANO SILVA VIEIRA.

Nunca esquecerei o dia em que o vi: o morto.
O homem morto jazia no chão, seus olhos, tais como duas diminutas esferas de vidro, refletiam o vazio.
“Ele pulou” – falou alguém – “o pobre coitado se matou.”
Nunca havia visto um morto antes e na minha mente infantil aquele acontecimento marcava uma fronteira em minha curta existência, pela primeira vez me dava conta da finitude da vida, não éramos eternos como pensava até então, um dia a vida acaba.
Assim deixei o morto, mas o morto não me deixou. Foi comigo em meus pensamentos, seus olhos de vidro se abriam sempre quando eu fechava os meus...
Foi assim que naquele dia resolvi matar aula. Depois de ver o morto simplesmente atravessei a rua e desviei da multidão que se formava em volta do corpo. Eu sentia um frio na alma, uma solidão inexplicável.  Corri o mais rápido que pude, quase me perdendo entre as ruas do centro da cidade.
Cheguei em casa apavorado.
Ouvi minha mãe preparando o almoço. Já no quarto, joguei a mochila num canto e fiquei paralisado sentado ao lado da cama.
– Luciano , meu filho? É você?
Ouvi minha mãe chamando lá da cozinha. Não respondi.
– Luciano? O que aconteceu criatura? Não era para você estar na escola uma hora destas?
– Não teve aula mãe, menti em voz baixa.
– O quê? Não ouvi. Vem já aqui, dizia dona Délia, sem paciência.
Levantei do meu refugio e fui tentar explicar o inexplicável:
– Não teve aula mãe, teve um acidente perto da escola e a gente foi dispensado.
– Que acidente? Ai meu Deus, você está bem?
– Tô mãe. Para, não aconteceu nada comigo, eu dizia me esquivando das mãos preocupadas de mamãe que já procuravam possíveis machucados hediondos em meu corpo.
Contei a ela metade da história. Disse que no caminho houve um acidente, alguém fora atropelado, ou se jogou de um prédio.
– Minha nossa senhora. E você viu alguma coisa?
– Não, não vi nada. Me deixa mãe. Tô com fome. O que tem pro almoço, disse eu desviando o assunto.
– Ah Lucinho ainda vai demorar. Perdi muito tempo tentando falar com seu avô. Me atrasei com tudo, reclamava dona Délia falando sem respirar. Ele está cada vez mais difícil. Você acredita que já liguei três vezes e ele não atendeu o telefone? Você sabe que...ah, deixa pra lá. Já que você não teve aula, vá ler alguma coisa enquanto termino essa comida.
Obedeci. Voltei ao quarto, me joguei na cama e fechei os olhos. Cada vez que eu tentava pegar no sono, os olhos do morto me encaravam. Abriam-se em minha mente.  Era como se eu e ele fossemos um só. A primeira vez foi um susto. Quase cai da cama.
Os olhos se abriam dentro de mim e passaram a me mostrar o que viam. E eu via a mim mesmo. Mas não conseguia entender: eu estava deitado e me via em pé na minha frente. Foi quando me dei conta que eu via através dos olhos do morto. Era a cena do acidente. O momento em que passei por ele.
Acordei num pulo e abafei um grito. Nesse momento mamãe me chamou para o almoço. Sentei a mesa sem conseguir comer muita coisa.
– Este menino tá muito estranho hoje, comentava minha mãe com o passarinho de estimação que mantinha na gaiola perto da lavanderia.
Voltei ao quarto e estava com medo de fechar meus olhos novamente.
Desisti de ficar sozinho. Sai, fui andar pela rua. Encontrei a turminha do futebol, aceitei uma partida. Fomos lanchar na casa do Fernando e a tarde passou rapidamente.
Quando voltei pra casa meu pai já estava na sala com seu tradicional copinho de cerveja na mão.
– Boa noite, Luciano. Vai logo tomar banho que sua mãe já vai servir o jantar.
Assim fiz. Fui jantar. Assisti um pouco de TV e sucumbi ao sono. Fui quase me arrastando de volta ao quarto.
Puxei a coberta e mesmo sem querer fechei os olhos. Nesse momento cai. Cai num buraco profundo e quando cheguei ao chão me vi andando. Andava por ruas escuras cheia de bêbados. Postes mal iluminavam as pedras da calçada. O lugar cheirava a mijo. Na esquina uma mulher de cabelos cacheados, de vestido avermelhado, me chamava com o cigarro na mão:
– Senhorzinho, o programa custa menos de mil-réis.
Dobrei a esquina e me deparei com a polícia cuidando de um caso de morte. Cheguei perto e pude ver mais uma vez um corpo. O corpo de um homem estrangulado.
Encarei o morto e mais uma vez veio aquela sensação de estar conectado a ele, éramos um só. Eu via ele e me via através dele. Nessa hora acordei. Pulei da cama como se levasse um choque. Olhei o relógio da cabeceira e percebi: eu dormira apenas meia hora.
Tentei me acalmar e voltei a respirar normalmente. Novamente veio o sono e fechei os olhos. Por dentro de mim um novo par de olhos se abriu. Era dia e eu caminhava por uma trilha florida. O sol queimava meu rosto. Olhei em volta e a praia se mostrou. Era uma bela tarde de verão. Crianças brincavam na areia. Casais namoravam em frente ao mar. As roupas de banho eram recatadas, parecidíssimas com as que eu vira em alguma obra de arte na casa de vovô. Segui andando pela passarela beira-mar. Logo adiante a paisagem mudou. Uma multidão se aglomerava na calçada. Abri caminho e vi o corpo da mulher que se estendia no chão. Uma moça de não mais de vinte anos havia levado uma facada. Sangue se espalhava pelos cabelos. Olhei a cena, e vi a mulher me encarando. Olhos quase de vidro que me imploravam por ajuda. Dessa vez não acordei imediatamente. Dei dois passos em direção a ela. Nos conectamos e nesse momento a mulher mexeu os lábios. Eu me assustei. Despertei suando.
Não dormi mais naquela noite.
A partir dali meus sonhos tornaram-se pesadelos. Toda vez que eu fechava os olhos da realidade, passava a ver com os olhos internos. E a rotina era a mesma: encontrava um morto que me olhava, me conectava a ele e via tudo o que ele via. Cada morto que eu encarava me olhava de volta. Fui perdendo o medo. Aos poucos fui chegando mais perto.
Naquela noite o morto que encontrei foi uma criança pouco mais velha que eu. Uma menina que ao me encarar me chamou pelo nome: Luciano.
Reconheci a menina. Era a mesma que estava numa foto na casa dos meus avós. Puxei pela memória e lembrei: era a filha de uma das escravas amiga de minha bisavó. Ela sussurrou meu nome mais uma vez. Fui até ela e colei o ouvido em sua boca. A moça me disse com todas as letras: foi dom Martin. Me conectei a ela e pude ver tudo o que havia acontecido momentos antes de sua morte.
Acordei gritando. Pela primeira vez pude ver e ouvir o que os mortos tentavam me falar.
Sai agitado para a escola. Uma pesquisa rápida na biblioteca e descobri que dom Martin havia sido um senhor de engenho muito conhecido na cidade. Era rico e próspero. Meu avô havia me contado que minha bisavó morou nas terras dele trabalhando na mansão para ajudar minha tataravó com os serviços domésticos. Havia algumas poucas escravas ainda por lá. E a menina era filha de uma delas.
A garota que apareceu no sonho foi encontrada morta na casa de dom Martin. A explicação registrada pela polícia foi de que a criança havia caído da escadaria da mansão e batido a cabeça. Mas eu sabia da verdade: a morta me mostrou. Ela fora espancada até a morte por dom Martin, que além de estuprar a criança quis dar uma lição para que a garota não abrisse a boca. Bateu tanto que ela morreu. E agora eu sabia de tudo. Fiquei indignado. Prometi a mim mesmo que colocaria a boca no trombone. A justiça precisava ser feita.
Fui para casa arquitetando um plano para desenterrar casos antigos onde poucos se importavam em resolver e ainda acusar um rico fundador  da cidade de assassinato. Não parava de pensar naquilo. Dispensei o jantar e fui dormir sem tirar a menina da cabeça.
Naquela noite meus olhos internos me levaram para a rua onde encontrei o meu primeiro corpo. Estava eu novamente em frente ao morto que me encarava com diminutas esferas de vidro que refletiam o vazio. Dessa vez não sai correndo. Fiquei ali, firme, esperando ele mexer a boca.
E assim foi. O morto me chamou para perto. Fui andando lentamente até ele. Nessa hora ele falou: foi o delegado Diego. E a cena do delegado atirando o homem pela janela estava nítida na minha frente. Eu acabara de saber que o meu “primeiro morto” havia sido assassinado por um delegado para manter em segredo um esquema de lavagem de dinheiro.
 Acordei com a boca seca. Um delegado? Como assim? Na minha cabeça infantil eu achava impossível um homem da lei matar alguém. Perdia ali mais uma parte importante da minha inocência.
Não dormi mais. Passei a pensar como diabos eu, um menino franzino, mal saindo das fraldas, estudante mediano, vou ser levado a sério para desvendar essa série de crimes? E como alguém vai acreditar que falei com os mortos? Que vi as cenas das mortes através dos olhos das vítimas?
Havia três dias que vira o homem morto pelo delegado e eu estava perdido, mas alguma coisa precisava ser feita.
No outro dia pela manhã fui correndo falar com meu avô. “Ele sabe das coisas, só ele pode me dar uma solução”, pensei.
Cheguei a sua casinha no fim da rua e a porta estava trancada. Bati, bati e ouvi devagar os passos dele.
– Entra menino, estava te esperando.
Contei toda a história para o meu avô que pacientemente me ouviu sem dizer uma palavra. Quando terminei de falar apenas me disse:
– É que estou muito cansado. Vou embora e deixo pra você essa minha herança. Se cuida moleque. Levantou e foi em direção ao quarto.
Sai atrás dele sem entender nada. Quando cheguei no quarto encontrei o corpo do meu avô deitado na cama. Duro. Frio, quase roxo.
O médico legista avisou minha mãe que o velho estava morto havia três dias. Minha mãe se culpou por não ter procurado o próprio pai pessoalmente.
– Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa, dizia ela em prantos... Quando ele não atendeu o telefone, eu sabia... Lamentava e chorava mais ainda.
Eu guardei o segredo dele para sempre. Agora ele faz parte de mim. Meu avô deixava para mim seu dom de falar com mortos.
Achei em uma mala embaixo da cama dele vários recortes de jornais carcomidos pelo tempo que falavam dos casos da mulher esfaqueada na praia, do homem estrangulado e como misteriosamente os assassinatos haviam sido desvendados. Também achei informações sobre a filha da escrava e dom Martin. Meu avô tentara de todas as formas incriminar o senhor de engenho, mas foi tudo em vão. Ele desistiu.
Cresci e também desisti. Aquele caso continuaria sem solução. O peso disso na minha alma me deixa cada dia mais triste e descrente.
Sigo pela vida tentando entender a morte. Sempre com os olhos dos mortos me encarando e pedindo socorro. Nem sempre faço justiça. Às vezes ela é impossível. Torço para que a justiça divina faça o que deve ser feito.
Agora deixa eu ir. Estou atrasado para o turno noturno na delegacia.
Hoje com certeza vai ser mais uma noite de assassinatos e casos inexplicáveis. Ou quase.
FIM

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O BISTRÔ





ATENÇÃO, PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS:

http://www.recantodasletras.com.br/contoseroticos/4562815
OU
http://www.historia-erotica.com.br/contos-eroticos/madame-red/o-bistro
PARA QUEM GOSTA DE HISTÓRIAS PICANTES. O TEXTO É DA MADAME RED E ESTÁ NO LIVRO "CONTOS ERÓTICOS PARA LER A DOIS". UM BEIJO.

Ana Cristina tinha o costume de ir à loja no final da tarde. Cleber ficava ansioso esperando ela chegar.
Ele ajudava o pai. Ficava no caixa da loja de doces. Tomava conta de dois garçons, uma doceira e de uma menina “faz tudo”. O bistrô era pequeno, mas muito charmoso, todo em estilo “retrô”. Ana Cristina pedia sempre um capuccino e nunca dispensava um pedaço de torta.
Naquela tarde Cleber havia discutido com o irmão. Estava furioso. Ana entrou, sentou no canto. Os garçons estavam ocupados, Cleber saiu do caixa e foi falar com ela.
Ana sorriu e pediu apenas o café. Cleber trouxe o pedido e uma torta de nozes. 
– Ei, eu não pedi a torta, avisou ela, simpática.
– Tudo bem, é por conta da casa, explicou ele.
– Ah é? Nossa, o que eu fiz para merecer?
– Você sorriu e me fez perder o mau humor.
Ana sorriu novamente e percebeu que os olhos de Cleber não saíram de cima dela. Gostou do flerte.
Foi embora e Cleber fez questão de não cobrar a conta. Ainda deu uma piscadinha de olho. 
Ana foi embora com a impressão de que dali havia surgido algo mais que um simples café.
No outro dia voltou e encontrou novamente o moço bonito atrás do balcão. Sorriu em direção a ele e disse:
– Hoje, faço questão de pagar, nem adianta insistir.
Ele sorriu de volta e mandou o garçom servir. De longe observava Ana Cristina.  Foi até a mesa e disse:
– No bistrô servimos taças de vinho também. Aceita uma por conta da casa?
Ela riu, gostou da investida, mas disse que não poderia. Dali ainda iria ao teatro. Ele então convidou:
– Depois do teatro então? 
– Não sei não... Disse ela, fazendo certo charme.
– Por favor? Você vem até aqui. Eu abro a porta. Estaremos sozinhos. Meu pai não vai se importar.
– Ah, você é filho do dono?
– Sim, um deles. Muito prazer, Cleber.
– Hum, está bem. Sou Ana, lá pelas nove eu apareço. 
– Está feito então.
Ana Cristina foi para o teatro. Passava em pensamento a conversa que acabara de ter com o “moço bonito da loja de doces”. Era assim que ela havia apelidado ele antes de saber que se chamava Cleber. Também pensou se a calcinha que estava usando era digna de um primeiro encontro. Não era.
Ana Cristina chegou nove e quinze. Bateu devagar na porta. Lá dentro um aconchegante ambiente iluminado por velas esperava por ela.
Tirou o casaco, sentou na cadeira indicada por Cleber. Ele abriu o vinho, ofereceu uns petit four e perguntou como tinha sido a peça de teatro. Ana contou em detalhes.
Ficaram os dois conversando, se conhecendo, se entendendo. O vinho subiu à cabeça de Ana mais rápido do que imaginara e logo estava rindo à toa da conversa de Cleber.
Ele foi se aproximando, e logo estava beijando a mulher com desejo. Ela recebeu seus beijos com tesão. Abraçaram-se e o calor do corpo deles foi aumentando.
Cleber ficou em pé diante dela e a pegou pela mão. Ana levantou meio cambaleando. Os dois se abraçaram. Trocaram mais beijos quentes. Ele então começou a tirar a roupa de Ana Cristina. Ela estava zonza de excitação e vinho. Ajudou Cleber a tirar sua blusa. Ele a beijava enquanto explorava seu corpo. Puxava Ana para perto de si. Tirou a saia que ela usava, tirou a calcinha feia e lambeu o sexo de Ana. Rapidamente, o suficiente para deixa-la louca de desejo. Cleber apertava sua carne, enfiava os dedos em Ana. Deixou a mulher molhada de tantos toques. Chupava os dedos com o gosto dela. Abria a boca de Ana e enfiava a língua. Seus movimentos eram lascivos, sensuais, parecia ter fome dela. 
Ana abaixou em frente a ele e abriu a calça que ele ainda usava. Cleber sentou na mesinha, derrubou o vinho no chão, mas não se importou. Ana tirou o pau dele de dentro das calças.  Estava completamente entregue. 
Ana abocanhou o pau de Cleber, sentindo ele duro pulsando em sua garganta. Chupou, lambeu e agarrou com força. Ele puxava o cabelo dela para ajudar no movimento. Cleber avisou que ia gozar e Ana não se afastou. Deixou ele encher sua boca de porra. Engoliu tudo. Ele a beijou na boca e sentiu seu pau endurecendo novamente. Jogou Ana de barriga na mesa e abriu as pernas dela. Enfiou seu pau com força. Comeu a mulher puxando seu cabelo, arranhando suas costas. Ela sentia o pau dele rasgando suas entranhas. Continuaram a foda assim, com força e loucura.
Quando finalmente se satisfizeram, Ana levantou da mesa, vestiu a roupa e beijou Cleber. Ele ofereceu mais uma taça de vinho. Ela não quis. Ele então serviu água e ambos riram muito da sujeira que fizeram na loja. 
Ana Cristina e Cleber arrumaram toda a bagunça. Ele se prontificou a levá-la em casa, mas ela recusou. Despediram-se na porta da loja com a promessa de se verem em breve.
Dois ou três dias se passaram e Ana não teve tempo de voltar à loja.
Naquela tarde resolveu passar para ver Cleber.
Entrou, sentou-se no lugar de sempre.
Ele veio em sua direção carregando um sorriso ainda mais lindo do que ela lembrava.
– Menina linda, uma torta de morango é pouco para sua beleza, disse ele.
– Ah, que elegante. Obrigada moço bonito, sorria ela.
Ele entregou um café e a torta de morango e voltou para o caixa. 
Ana saboreou o lanche e estava de saída quando ele disse:
–Ei, você não vai me deixar aqui sozinho hoje, não é?
– Hum, por quê? 
– Porque eu preciso te ver mais tarde. Você aceita me visitar lá pelas nove da noite? Eu deixo um vinho gelando.
Ana Cristina riu, e aceitou. 
– Claro, eu volto.
Às nove da noite Ana batia na porta da confeitaria.
O homem lá dentro esperava com todas as luzes apagadas. Abriu a porta em silêncio, pegou Ana pela mão e a levou para os fundos da loja. Lá havia uma porta que dava para um apartamento que ficava conjugado a loja.
– Eu moro aqui. Vem conhecer meu quarto, explicou ele.
Assim foram caminhando pela casa no escuro, chegaram ao quarto dele. A cama era de casal, iluminada por um abajour avermelhado. O ambiente havia sido preparado para esperá-la.
Ana sentou-se na beira da cama. Ele beijou sua boca. Suavemente. Fazia carícias delicadas em seu corpo. Beijou seus mamilos, deu pequenas mordidas. Encarava Ana nos olhos. Estava tão amável, romântico, doce. Tiraram a roupa e ficaram se tocando, se olhando, se sentindo. Ele cheirou o corpo de Ana e deitou-se na cama com ela. Subiu nela e enfiou seu pau no corpo da mulher que esperava por ele. Possuiu Ana devagar, enfiando e tirando com nenhuma pressa. Ana rebolava embaixo dele. 
Ele virou Ana de bruços, mandou que ela ficasse de quatro pra ele. Ela obedeceu. Ele lambeu sua boceta. Ana gemia. Ele entrou nela novamente rasgando aos poucos a carne que pulsava em seu pau. O movimento era lento, mas gostoso. Gozaram os dois assim.
Beijaram-se e ela adormeceu. Acordou assustada no meio da noite. Estava sozinha no quarto. Pegou sua roupa e foi devagar de volta pelo corredor escuro. Passou pela cozinha e lá viu o impossível: havia dois Cleberes lá dentro. Ela demorou a entender. Eram os irmãos, gêmeos. Eram iguais. Pouca coisa se percebia de diferença. Ouviu um pouco da conversa: 
– Cleber, como você vai se apaixonar por ela? Ela nem percebeu a diferença! 
– Hebert, deixa de ser idiota. Ela pensou que estava comigo. E deixa de ser machista sem-vergonha. 
– Vadia sim, foi só dizer que ela era linda que caiu no meu papo.
– Ela não sabia, seu imbecil. Estava dando bola para mim e não para você. Hebert eu não admito que você faça isso novamente.
O irmão ria. Cleber estava exasperado porque realmente havia gostado de Ana. 
Ela manteve o silêncio e foi embora tentando entender o que havia acontecido.
– Filho da puta, eu pensei que fosse Cleber nas duas vezes. Maldizia Ana quase chorando.
Foi para casa. Não conseguiu dormir. Apesar de achar uma sacanagem os gêmeos terem a dividido, ela gostou. 
E gostou tanto do Cleber selvagem e honesto quanto do Hebert romântico e cafajeste.
No outro dia Ana chegou calada. Sentou em uma mesa diferente e não olhou para Cleber que estava no caixa.
Pediu apenas água e lia uma revista sem levantar os olhos.
Cleber se aproximou.
– Adorei ontem, mentiu ele.
– Aham, eu também, falou ela indiferente.
– Vamos repetir hoje?
Ana não respondeu. Olhou para os lados, levantou e disse:
– Às nove?
Ele apenas balançou a cabeça e sorriu.
Ela saiu sem pagar a água.
Nove em ponto ela estava lá. Linda como nunca. Usava um vestido vermelho curto que deixava suas pernas à vista.  Cleber a esperava ansioso.
Ana entrou e ele logo a puxou para si, beijou sua boca com desejo. Apertava Ana, queria rasgar a roupa dela, mas apenas levantou o vestido e viu que ela usava uma calcinha vermelha sexy, provocante. Bem diferente da calcinha feia do outro dia. Cleber sentou Ana na cadeira e se ajoelhou na sua frente, abriu as pernas dela e caiu de boca no sexo da mulher que cheirava a almíscar. Enterrou a língua no clitóris dela, e sentiu cada pulsação de prazer que Ana revelava. 
Ela levantou e estava pronta pra ele. Virou de costas e ele enfiou o pau naquela boceta molhada enquanto apertava os seios de Ana. Os movimentos eram rápidos, seguros, fortes. Ele tirou o pau de dentro dela e gozou nas costas de Ana. Espalhou seu sêmen pela bunda, sujou a mulher com o gozo dele. Mas Ana queria mais. Puxou ele para si e mandou que batesse nela. Ele levou um susto!
Bateu suavemente no rosto de Ana. Mas ela pediu mais força, pediu para ser machucada.
– Me bate como homem. Me machuca. Me chama de puta. Dizia Ana quase histérica. 
Cleber ficou aturdido. Não entendeu aquela reação de sua doce Ana. Mas entrou no jogo e machucou a mulher. Ele gostava desse sexo selvagem. Bateu como ela pediu, e novamente a virou de costas e a comeu com força. Ana queria tomar no cu. E ele obedeceu. Currou a mulher que gritava enlouquecida de prazer. 
Quando enfim terminaram, Ana lançou um olhar misterioso para Cleber, como se soubesse de toda armação. Se despediram e ela foi embora deixando para trás um intenso perfume que Cleber nunca antes tinha sentido.
Ana apareceu novamente durante a tarde. Cleber não estava no caixa. Era Hebert que estava por lá. Sem o menor escrúpulo foi falar com ela:
– Quero mais você.
– Ah é? De vestido vermelho?
Hebert não sabia o que responder, mas fez que sim com a cabeça
– Hoje então. Nove horas, disse ela com um sorriso meio de lado.
Hebert ficou exultante. Ia comer novamente a namoradinha do irmão. 
Nove horas Ana batia na porta. Novamente usava o vestido vermelho. Hebert abriu a porta e beijou-lhe a mão.
Era um verdadeiro gentleman. Ansioso por começar logo a sessão de sexo com Ana, não percebeu a presença do irmão na sombra.
Ficaram ali se beijando até que Cleber acendeu as luzes.
Ana levou um susto. Hebert também.
– O que você está fazendo, cara? Perguntou Hebert.
– Cala a boca, disse Cleber. Virou para ela e disse:
– Ana Cristina, me perdoa. Meu irmão gêmeo te enganou, mas não foi ideia minha.
Ana sorriu.
– Ana Cristina? Não. Essa é minha irmã gêmea. Muito prazer, sou Ana Carolina. FIM

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O HOMEM QUE DESVIAVA


Alexandre era um cara responsável. Pai de Rafael, marido de Julia, filho único de dona Selma. Estava sempre disposto a ajudar. Tinha habilidade em consertar carros, luminárias e amizades. Era ele quem acalmava os nervos da galera quando a discussão esquentava. Ele que trocava as lâmpadas queimadas da casa da mãe viúva. Ele que levava o sogro ao médico. Ele que nas horas vagas distribuía ração para cães abandonados.
Alex, apelido obrigatório, não tinha muitas reclamações sobre a vida. Se dedicava de corpo e alma a fazer o bem. Mais corpo que alma. Alex estava bem acima do peso, mas nem isso tirava seu sono. Bonachão e boa praça. Sabe o tipo? Então, assim era.
Trabalhava em uma imobiliária no centro da cidade. Cidade quente, sem chuva, sem sombras, tomada pelo asfalto. Ia cedo para o serviço. Perdia mais tempo caçando vaga para deixar o carro que rodando pelo caminho. Ele morava pouquíssimos quilômetros da firma, mas a gordura de seu corpo era desculpa para não encarar uma caminhada.
Chegava ao escritório arfando. Dia sim, e no outro também, o elevador estragava e Alex encarava três andares como quem vê os portais do inferno. Vermelho, suando e sem dignidade alguma, entrava na sala, se jogava em sua cadeira e dava início ao dia de multitarefas.
Funcionário exemplar, além de ser responsável por várias contas de aluguel e cobrança de condomínios, tomou para si a obrigação de descer até a lanchonete da esquina para comprar diariamente as guloseimas do escritório. Valia tudo na hora do lanche. De pastel a picolé. E Alex era criativo, nunca repetia o petisco.
Em sua simplicidade, se dizia um homem completo.
– Pra que eu quero mais? Tenho uma mulher linda, um filho cheio de saúde e inteligência, uma casa com piscina e uma sogra que já já bate as botas, ria Alex até engasgar durante o discurso no cafezinho, quando os colegas agradeciam as gentilezas do gordo simpático.
Apesar de todas as alegrias que a vida pode proporcionar a um bom pai e cidadão exemplar, Alex se incomodava com uma coisa: ele era um cara que desviava.
É exatamente isso. Mesmo com todo aquele tamanho, Alex precisava andar sempre, ou quase sempre, em zigue-zague. As pessoas simplesmente não desviavam dele . Se estava subindo a escada escorado no corrimão para se equilibrar e manter o fôlego, lá vinha uma horda descendo os degraus que simplesmente não saia da frente e o obrigava a soltar o corrimão e deixar todo mundo passar. 
Se andava pela rua, quem quer que viesse em sua direção, ia reto, não desviava. Alex se obrigava a dar um passo para o lado.
Era um problema. Pra muita gente, uma bobagem, para Alex, um problemão.
Qualquer duzentos metros de caminhada se transformavam automaticamente em dois quilômetros de tanto que ele desviava das pessoas.
Quando tentava não desviar era de praxe levar esbarrão. E com ele sempre um puxão de orelha:
– Ei, olha por onde anda...
Isso sem contar as diversas vezes que iam lanche, sucos, cafés e respeito para o chão. Tudo porque ele não desviou.
Outro dia, andando apressado pela calçada, não desviou de uma senhora distraída e a mulher bateu com toda força em seu peito. E ainda xingou muito Alex. O homem ficou sem palavras. Não pediu desculpas porque afinal não era culpa dele. Ficou parado olhando a mulher indo embora e para sua surpresa, a tal senhora seguiu caminho desviando de tudo e todos. Naquele momento Alex se perguntou quase em voz alta: por que sempre eu que tenho que sair da frente?
Aproveitou o intervalo do almoço para observar o trânsito, os pedestres, o movimento das ruas. Dividiu a humanidade em dois tipos: os que desviam e os que não desviam. Passou a admirar os que não desviam. Mostravam mais confiança, elegância, força e determinação. Enquanto os outros que saiam da frente geralmente andavam de cabeça baixa, quase cansados. Disposto a fazer parte do mundo dos fortes, bradou a si mesmo:
– A partir de hoje não vou desviar. Venha o que vier, seja quem for, eu não desvio.
Fez o sinal da cruz para garantir a seriedade do juramento.
Manteve a rotina de ir de carro ao trabalho, achou vaga perto da entrada. Ninguém passou por ele. Surpreendentemente o elevador estava funcionando. Desceu no andar do escritório, foi até sua mesa, e nada de precisar desviar.  O dia começava bem.
Hora do lanche, Alex se preparou para ir até a esquina pegar as coxinhas de galinha tradicionais da quinta-feira. Confiante, desceu pelo elevador, atravessou a porta grande do prédio e nem viu que a rua estava praticamente vazia.
Feliz em não precisar desviar de ninguém, Alex caminhou tranquilamente. Nem percebeu que o local estava cercado pela polícia. Naquele momento, bandidos estavam fugindo de um assalto a um banco ali próximo. O centro da cidade estava nervoso. Policiais do esquadrão antibomba gritavam para todos se afastarem, a rua fora interditada, polícia de um lado, ladrões de outro. Sirenes, confusão.
Quando se deu conta do que acontecia Alex saiu correndo, nessa hora começou o tiroteio.
Alex dobrou a esquina para o lado errado e acabou de cara com os bandidos. Ficou paralisado. Sem mexer um músculo, apenas ouvia os gritos dos assaltantes encurralados.  
A primeira reação foi pedir “peloamordedeus” que o deixassem ir, mas Alex lembrou que agora ele era forte, destemido, um homem que não desviava de nada. Não cederia um passo, um centímetro para o lado.
Não teve medo. Manteve o juramento: morreu com uma bala na cabeça porque não saiu da frente.

FIM 

domingo, 20 de outubro de 2013

BRINCANDO NO MAUSOLÉU


Ele fazia quase todos os dias o mesmo caminho. Uma trilha que cortava ao meio o matagal fechado. Estrada improvisada construída pelo tempo e por muitos que precisavam chegar ao cemitério.
A caminhada começava cedo. Antenor acordava de madrugada, com os galos cantando, como se diz. Tomava um café ralo, vestia a roupa limpa, encaixava o chapéu na cabeça grisalha e ia para o serviço. Embaixo do braço a marmita preparada na noite anterior. Era o almoço e muitas vezes a única refeição do dia. 
Antenor era viúvo. Pai de dois filhos que a morte insistiu em levar antes do tempo. Semianalfabeto, com as desgraças da vida, acabou contratado como coveiro da cidade.
Encarava a morte com despeito. Para ele – ela, a morte – era apenas uma dama exibida que ganhava créditos pelo que não era. Tratava a “dama” como inevitável e natural. Nada de mais. Nem de menos.
Não tinha religião. Andou metido em uns rituais de macumba mas achou demais para ele. Foi criado contrário aquilo tudo. Uma mãe rígida e pobre  levava a religião muito a sério e carregava o filho para os cultos no fim de semana. Depois da morte da mãe, Antenor se separou da igreja.
– Tudo a mesma merda, dizia cuspindo em seguida, enquanto fumava o tradicional cigarro de palha.
A rotina de Antenor era simples: acordar cedo, ir pela estrada mal- acabada, abrir os portões do cemitério e esperar. Esperar a morte chegar. A morte dos outros, porque a dele ele fazia questão de nem ligar. Se houvesse almoço, almoçava; se houvesse café, bebia. Ia vivendo os dias entre as lápides.
Os gatos eram sua única companhia. Eles tomavam conta dos túmulos, sombras e jazigos. Ficavam ali, entre as sepulturas, à espreita de não sei o quê. Lambendo o pelo e dormindo. Durante à noite eles acordavam.
Se houvesse enterro no dia, Antenor abria a cova e esperava com serenidade pelo defunto e a comitiva do velório.
Observava de longe. Nunca chorava à beira do caixão. Muitas vezes derramava lágrimas disfarçadas porque conhecia o morto. A cidade era pequena, não eram tantos, era fácil saber quem era quem.
Depois do enterro, Antenor repassava seus sentimentos à família, se retirava para o banho no chuveiro, que ficava atrás da sala da administração, e trocava a roupa. Comia o que sobrava da cerimônia fúnebre e se aprumava para ir embora.
Antes de trancar os portões do cemitério, fazia uma pequena ronda. Ao final, deixava comida e água para seus gatos. E pegava o rumo de casa. Morava num casebre simples e modesto pouco antes do fim da trilha.
Antenor percorria o caminho de volta entre insetos, escuridão e silêncio. A lua servia de iluminação. E apenas ela. Quando não havia lua, Antenor ia guiado pela experiência.
Aquele tinha tudo para ser um dia comum. Manteria a rotina. E assim fez:  Antenor chegou ao cemitério e foi logo avisado de que teria enterro naquela tarde.
Saiu para fazer a ronda da manhã quando percebeu que uma lápide estava fora do lugar.
– Mas que diabo é isso? Se eu pego quem fiz essa arte, eu mato. E enterro aqui mesmo. Que merda! Falava Antenor aos seus fantasmas.
Arregaçou as mangas e foi colocar a lápide no lugar. O problema que a tal pedra era pesada demais para um homem só. Ficava em um mausoléu de uma família muito antiga, os famosos e temidos Bragança. Famosos por serem ricos e fundadores da cidade. Temidos por serem cruéis e sem escrúpulos com os escravos. Antenor insistiu, mas não conseguiu arrumar a bagunça.
Deixou pra lá. Ninguém além dele ficaria sabendo, já que nenhuma pessoa visitava aquela família.
Antenor foi cavar a cova para o novo morador. Na ala mais recente, onde não há mais mausoléus nem grandes estátuas.
Fez o buraco e esperou.
O morto chegou. Antenor foi arrebatado por uma tristeza infinita.
O corpo era de uma menina. Uma criança de no máximo dez anos. Cabelos presos em trança. Vestido engomado. Lábios avermelhados. Parecia dormir.
“É a Ana, filha da dona Elizete”, pensou. “Valha-me nossa senhora, era uma menina tão boazinha”. Naquele momento esqueceu a falta de religião e fez o sinal da cruz.
Antenor enxugava o pranto com a luva suja de terra.
Quando finalmente fechou o túmulo de Ana, não tinha mais lágrimas a derramar.
A família da menina foi embora consolando uma mãe inconsolável. Eram poucos os amigos e parentes, mas suficientes para tentar aplacar a dor daquela mulher.
Antenor observou os carros indo embora. Não conseguiu comer as sobras do velório. Guardou tudo para os felinos. Pensou em entregar aos gatos, mas naquele início de noite eles estavam desparecidos. Abandonaram sem pudor todos os postos de vigilância.
Antenor chamou, chamou e nada. Nem um miado.
Resolveu dar uma caminhada pelos corredores do cemitério para ver se achava a gataria.
Entrou na ala dos esquecidos. Eram corpos emparedados e empilhados sem nome na lápide. Ninguém os queria, nem quando vivos, muito menos depois da morte.
Nada de gatos. Enquanto se dirigia para o final do corredor sentiu que atrás dele havia alguém. Virou-se rapidamente e pode ver de relance uma sombra que deixava o local. Como se alguém corresse para se esconder.
– Ei, quem ‘tá ai? Gritou Antenor. Nenhuma resposta. Pensou em voltar até lá, mas desistiu. Estava perto demais do final do corredor e precisava achar os gatos com rapidez, a noite já estava avançando e não havia lua suficiente para ele voltar pela trilha.
Apurou a audição e ouviu ao longe o som do que parecia ser um grito. Foi em direção a ele e lá estavam todos. Como reunidos numa cerimônia, os gatos estavam em volta da lápide mal acomodada do mausoléu dos Bragança.
– Arre, só que me faltava, primeiro a brincadeira com a pedra, agora esses bichos malditos, falava em voz alta para ele mesmo.
Foi em direção aos bichanos e eles nem notaram a sua presença. Antenor precisou gritar para que saíssem de uma espécie de transe.
Mexerem-se com uma lentidão enervante. Caminhavam como se donos da terra.
Antenor virou as costas e mais uma vez teve a certeza de ver uma sombra, dessa vez bem à sua frente. Na verdade duas sombras, que foram sumindo sem pressa. Antenor piscou bem os olhos, não estava acreditando no que via. Precisava sair dali.
Foi correndo em direção à administração. Pegou a marmita vazia, a chave dos portões e colocou-se depressa na trilha que o levaria até em casa.
Na estrada, apressou o passo. Sentiu aquela sensação quando se está sozinho e parece que tem alguém atrás da gente. Apressou tanto o passo que estava correndo quando avistou sua casa. Entrou sem limpar os pés. Fechou a porta com força. Dentro de casa, encostou as costas na porta e pode sentir uma batida estrondosa, como se a sombra que o seguia batesse nela.
Antenor se assustou. Acendeu as luzes da casa e esperou. Não houve mais nada. Nem barulho, nem batida, nem sombras. Nada. Apenas o silêncio da escuridão.
Não conseguiu dormir naquela noite. Foi assombrado pelos pensamentos e lembranças dos fatos da tarde.
No outro dia pela manhã, o sol mal apareceu no horizonte e Antenor se preparava para o trabalho.
Foi para o cemitério sem marmita, sem descanso e com medo.
Abriu os grandes portões. Não haveria enterro. O dia prometia ser calmo.
Pôde observar os gatos dormindo, nos postos de vigília, languidamente esperando o tempo passar.
Foi ver como estava a lápide no mausoléu violado. Chegando lá a surpresa maior foi que tudo estava normal.
Entrou sorrateiro, andou em volta e nada estava diferente. A lápide mexida estava de volta ao lugar.
Saiu do mausoléu e caminhou entre os corredores do cemitério. Meio sem rumo. Passou pela cova de Ana e ali sim, algo havia mudado.
As flores estavam surpreendentemente murchas e a lápide rachada. Ana Maria Bragança era o nome completo da menina.
Antenor não conhecia muito bem as letras, demorou a perceber a semelhança. – Bragança, Bragança,  eu já vi isso antes, disse para si.
Saiu correndo pelo cemitério a procura do nome. Acabou novamente  em frente ao mausoléu violado. Entrou e se deparou com o mesmo nome na lápide remexida: Ana Maria Bragança – a data da morte era 1734.
Nesse momento as portas do mausoléu fecharam com força. Antenor estava preso. Pode ouvir todos os gatos se aproximando da construção. Suava frio e tentou abrir a porta. Estava emperrada.
Sentia calafrios. Forçou a saída e nada. Lá fora os gatos reunidos faziam um barulho ensurdecedor. O sol que iluminava o ambiente por entre as vidraças simplesmente desapareceu. Ele foi tomado pela escuridão. Afastou-se da porta e começou a gritar pedindo socorro.

Os tocos de vela espalhados pelo chão serviram de ajuda. Antenor sacou o fósforo que carregava na calça, deixou os cigarros caírem do bolso. Com um risco certeiro, iluminou o ambiente. Nessa hora as duas sombras que anteriormente ele teve a impressão de ter visto se formaram na parede oposta a ele.
Antenor olhou para as sombras e viu nitidamente que duas meninas estavam à sua frente.
Eram mesmo duas crianças. Exalavam tanto terror que Antenor começou a chorar. Foi se agachando de medo. Pedia por favor, para que as meninas nada fizessem. Fechou os olhos. Podia ouvir a risada sinistra das garotinhas.
Ao abrir os olhos viu que as duas meninas haviam se aproximado. Estavam há pouco mais de um metro dele. Ele implorou pelo amor de Deus para elas deixarem ele ir embora.
Fechou os olhos novamente e ao abrir, as duas meninas estavam em cima dele. Riam em sua cara. Ele pode sentir o bafo de podridão que saia da boca desdentada de uma delas.
– Vem brincar com a gente, convidavam as meninas. 
Mais risadinhas assustadoras. Antenor estava apavorado. O coração batia descompensadamente.
As crianças colocaram as mãos no ombro do coveiro. Ele gritou. O medo assolou o corpo daquele homem e um silêncio grotesco tomou conta do lugar. Os gatos saíram correndo. A noite chegou.
Dois dias se passaram. A administração tentou avisar que haveria enterro naquela tarde, mas foi impossível. O enterro seria do próprio coveiro. Antenor foi encontrado morto. Congelado numa expressão de loucura e medo. Um novo funcionário foi contratado.
O que ninguém sabia é que Ana era a última descendente dos Bragança. Era tataraneta ilegítima do poderoso fundador da cidade. Resultado de um caso extraconjugal com uma escrava. Elizete, a mãe da última Ana Bragança, não fazia ideia do prestigio que poderia ganhar, nem da fortuna que poderia acumular sendo a última descendente da família.  
A outra Ana, menina do século XVI, morrera prematuramente vítima de uma tuberculose. Era uma criança quieta, sem graça, doente e solitária. A Ana de hoje seguia o mesmo destino, isolada, tímida e fraca, teve uma vida miserável. As duas finalmente se encontraram e seguiram pela estrada improvisada da vida. Com as almas perdidas foram em busca da alegria de viver e fizeram de Antenor um brinquedo fácil. Planejavam sair dali. O próximo passo seria deixar o mausoléu e o cemitério e ir brincar nas ruas da cidade. 


FIM







              

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A MENINA E A FLOR


A menina segurava a flor. O vento batia em seu cabelo ralo. Os pés no chão sentiam o frio da madrugada. Ela não passava de uma mancha na paisagem. As mãos ensanguentadas tremiam. Mas ela segurava a flor cada vez com mais força.
Começou a chorar. Chorou tão alto que os bichos da noite se esconderam na mata próxima. Ninguém passava por ali.
Lá atrás o carro da família ainda estava de cabeça para baixo.
A menina só queria mostrar a flor ao pai que dirigia. Uma distração. E a vida mudou o rumo.
Não restava carro, nem família, nem destino. Só a flor que agora já se desfazia com a ventania.
A menina ficou ali até o sol nascer. Sem consolo, tendo a solidão por companhia.
Ninguém veio ao seu socorro. Ela começou a andar. No horizonte o sol passou a brilhar alto. As sirenes da polícia não abalaram a menina, que simplesmente andou, andou, até secarem as lágrimas.
A flor se foi, o tempo passou e a menina virou mulher. Mora nas ruas, sem rumo. Se perdeu na rodovia e na vida.

* TEXTO PUBLICADO NO LIVRO  "BAR DO ESCRITOR - TOMO IV"  http://bardoescritor.blogspot.com.br/p/livros-do-bde.html


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

MIL ANOS DE PRISÃO



Texto baseado livremente em algumas absurdas histórias verdadeiras.

Sentença anunciada: mil anos de prisão. Ele recebeu a notícia de cabeça erguida, alheio ao que se passava em volta.
Rubens, 56 anos, braços e pernas algemados, uniforme sujo, barba crescida, nem de longe lembrava aquele que já tinha sido um homem bem apessoado, que inspirava confiança.
Entre os que acompanhavam o julgamento, desconhecidos, vítimas e algozes vorazes. Rubens, inabalável, falou em sua defesa que era tudo mentira, depois apelou para Deus e, num arroubo de insanidade, disse que nem se chamava Rubens. Negou o nome, a procedência e a vida demoníaca que o levara até ali.
Tudo começou 10 anos antes. Um Rubens em pleno auge de carreira de construtor. Irmão mais novo de uma família de cinco irmãos, Rubens perdera a mãe muito cedo. Fora criado por um pai bêbado e violento. Desde menino convivia com surras constantes e tortura descompensada.
Toda vez que o pai bebia, prendia os filhos em gaiolas espalhadas pela sala até que as crianças parassem de chorar. Ou até que a bebedeira fosse embora e a ressaca tomasse conta do dia. O pai de Rubens era um desempregado pária que morreu cardíaco e não fez falta alguma. Os filhos não se deram ao trabalho de ir ao enterro. Foi sepultado como indigente e esquecido.
Os cinco irmãos se separaram pelo mundo e Rubens se virou pintando parede e construindo muros. Evoluiu e montou uma pequena loja de materiais de construção.
Aos trinta e poucos anos havia construído a própria casa, cuidava da vida com tranquilidade e sequestrou duas crianças.
A loucura de Rubens chegou numa tarde em que passou em frente à escola fundamental da rua debaixo da casa dele. Avistou as duas vítimas quando dobrava a esquina. Eram os irmãos Cristina e Fernando. Ela tinha 12 anos , ele 13.
Com a demência que se instalou em sua alma, Rubens estudou a rotina dos irmãos. Eles chegavam sempre juntos, entravam sorridentes na escola. Na saída ninguém os buscava, iam a pé até em casa que não era longe dali.
Rubens passou uma semana de olho nos meninos. Até que um dia os abordou com um sorriso aberto e franco pedindo informação. Enrolou na conversa e acabou jogando os dois dentro da caminhonete que dirigia.
Prendeu os sequestrados no porão.
Os irmãos apavorados foram parar em duas gaiolas pequenas demais para grandes movimentos. Amordaçados, atordoados e com medo, choravam.
Mãos e pés amarrados, tanto gritaram em vão que cansaram. Acabaram adormecendo de tanto medo e frio.
No dia seguinte começou a jornada de uma década de tortura e maus tratos.
Por vários meses Cristina e Fernando ficaram trancafiados nas gaiolas. Enquanto Rubens construía um quarto ao lado do sótão. Deixava os irmãos presos dia e noite.  Ali mesmo nas gaiolas eles faziam as necessidades, bebiam água que Rubens deixava em pequenos potes de plástico. A comida era uma pasta que não exigia mastigação.
Ficavam amordaçados para não gritarem. Por um descuido de Rubens, certo dia Tina gritou tão alto que lhe rendeu um soco na cara. Ela ficou desacordada por três horas. Longas horas que quase mataram Fernando de tanto medo e angustia. Quando Tina abriu os olhos percebeu que perdera quatro dentes. Estava banguela e ensanguentada. Não recebeu nem um remédio, nada para aliviar a dor. Assim passaram os dias.
Finalmente a sala ao lado do porão ficou pronta. Estava escondida por uma porta de ferro que ficou atrás de um grande armário cheio de ferramentas. Mesmo quem descesse desavisadamente ao porão não poderia desconfiar que logo ali havia um cativeiro.
Rubens levou os dois irmãos até a nova sala. Dois catres esperavam por eles.  Sem cobertas nem travesseiros. Rubens  jogou os dois ali.  Perceberam um buraco no chão que funcionaria como banheiro. Um chuveiro improvisado com uma mangueira saia do teto. A luz era apenas de uma lâmpada que fora instalada embaixo de uma proteção de ferro, para que não houvesse perigo de ser usada pelos irmãos contra o sequestrador. Aliás, Rubens pensou em tudo. Nada ali naquele quarto dava a chance para os irmãos se armarem. Mesmo porque, Rubens instalou grilhões neles. Pesadas correntes amarradas nas pernas.  Nando e Tina criaram feridas nas canelas. Algumas sem cicatrizar nunca, outras até apodreceram a pele.
Durante meses não viram a luz do sol. Foram levados para um banho de sol amarrados às correntes. Um muro alto protegia a casa inteira. Nem vizinhos nem pedestres viam o que acontecia por ali. Atrás do terreno apenas uma floresta e sons estranhos de animais furiosos. Ninguém ouviu quando eles tentaram gritar por socorro.
Rubens bateu nos dois por demonstrarem tanta audácia.
Os irmãos foram novamente trancafiados e demoraram outros tantos meses para obter o benefício do sol.
Rubens visitava a cela dos irmãos todos os dias. Às vezes, contava histórias de como era torturado quando criança. Outras, tinha surtos de violência e chutava e espancava as crianças.
Quando finalmente as feridas nos dentes de Tina cicatrizaram, ele começou a sessão de estupros diários. Obrigava Nando a olhar tudo. Chegava quase sempre depois das refeições. Muitas vezes fazia Tina comer direto na tigela enquanto estuprava a menina. Tina estava muito machucada, completamente destroçada por conta dos abusos.
Rubens então passou a abusar de Fernando. Amarrava o menino na cama e estuprava sem piedade. Toda vez que algum tentava gritar ou se defender apanhava e muitas vezes Rubens estuprou os irmãos com eles desacordados mesmo.
Além dos abusos, inventou de torturar os jovens. Deixava cobras espalhadas pelo chão. Ratos também passaram a conviver com eles. Sufocava os dois enfiando suas roupas sujas garganta abaixo.
Para evitar os gritos torturou Nando com um alicate e cortou metade da língua do garoto.
A menina já perdera a esperança de continuar vivendo. Em pleno desespero, passou a menstruar. Todo mês que sangrava era obrigada a lamber seu próprio sangue. Até que um mês a menstruação não veio. Dois meses, três. Rubens desconfiou que Tina havia engravidado. Bateu tanto na jovem, distribuindo socos e pontapés que ela abortou. E perdeu a audição do ouvido esquerdo.
Passaram-se meses nessa rotina de aflição. O rosto de Tina estava irreconhecível. Teve praticamente o corpo todo quebrado de tantas surras.
Nando não falava mais. Também estava irreconhecível, perdeu cabelo, virou um adolescente magro, esquelético e raivoso.
Depois de vários abortos e muitas surras, uma criança sobreviveu no ventre de Tina. Ganhou a criança em meio a sujeira da cela. Abraçou a filha no colo por longos dez minutos.
Rubens vendeu a menina a um casal estrangeiro. Ficou satisfeito com o dinheiro. Avisou a Tina que na próxima gravidez ela não apanharia tanto e renderia uma boa recompensa.
Os estupros não pararam, as torturas ficaram cada vez mais elaboradas. Os meninos viram a juventude e a inocência morrerem naquelas paredes.
Rubens por várias vezes ficava dias sem procurá-los. Eram pequenas viagens que fazia a trabalho. Eram momentos que os irmãos aproveitavam para tentar fugir, gritavam desesperadamente, batiam em paredes, procuravam qualquer coisa que servisse de arma. E não conseguiam nada.
Cristina engravidou mais cinco vezes,  e em nenhuma delas conseguiu ter o filho. Agora Rubens batia nela por não ter lhe dado mais uma criança, já que na cabeça dele era uma boa maneira de ganhar dinheiro.
Certa manhã, contrariando todas as expectativas, Rubens  saiu e esqueceu de trancar a cela dos irmãos. Eles perceberam e correram desesperadamente em direção ao muro do quintal. Como não tinham voz, nem forças , o máximo que conseguiram foi chamar a atenção do filho da vizinha.
O menino brincava entre as árvores da floresta quando viu os irmãos tentando em vão escalar o muro alto. Então sorriu pra eles e começou a jogar pequenas pedras que carregara até o galho onde estava. Tina em um sussurro pediu para ele chamar o papai ou a mamãe. O menino não entendeu nada e ficou por um bom tempo jogando pedras e rindo. Até que Tina jogou uma pedra de volta e atingiu o rosto do menino. Ele começou a chorar e gritar pela mãe. Foi nessa hora que apareceu uma vizinha preocupadíssima com a criança e mal olhou em direção ao muro.
A mãe pegou o menino que contou entre lágrimas que duas pessoas haviam jogado pedras nele. Pra tirar satisfação, a vizinha foi bater na porta de Rubens.
Os irmãos correram para dentro de casa e começaram a bater de volta na porta, implorando para a vizinha chamar a polícia. Foi tudo muito confuso, a mulher demorou a entender e finalmente percebeu que os jovens pediam ajuda.
A polícia chegou. Já havia estado lá antes, mas nunca percebera o horror que se passava no porão. Encontraram os irmãos desfigurados, sujos e enlouquecidos. Rubens não voltou naquela noite.
Os irmãos contaram tudo á policia que montou guarda na casa de Rubens. Na manhã seguinte o homem chegou, estacionou o carro como se nada houvesse. Entrou em casa e finalmente foi surpreendido pelos policiais.
Rubens foi levado para a cadeia.
Os irmãos encontraram a família, ficaram sabendo da procura incansável por eles. Refizeram a vida.

Rubens foi julgado e condenado a mil anos de prisão.
Foi levado para a cela que ocuparia pelo resto de sua vida. Um cubículo mal cheiroso, bastante parecido com o quarto onde manteve os irmãos Cristina e Fernando.
Cada condenado daquele lugar sabia da história do sequestro, da tortura, dos maus tratos. Foi recebido com ameaças. O preso da cela ao lado cuspiu em Rubens quando ele passou.
Os guardas jogaram o homem ainda algemado no pequeno quarto imundo.
Rubens sentou no catre duro e desconfortável, o guarda tirou suas algemas e aproveitou para tirar o fôlego do prisioneiro batendo forte com o cassetete em sua barriga.
Assim como fez com os irmãos, ficou sem ver a luz do sol por muito tempo. Nos primeiros dias naquela prisão, Rubens aprendeu a não olhar os companheiros nos olhos. No refeitório nunca conseguia comer a comida em paz, já que os homens cuspiam em seu prato, isso quando não colocavam os pés na frente dele para que tropeçasse ao passar. Quando menos esperava, ia ao chão com bandeja e tudo.
Conseguiu autorização para trabalhar na lavanderia e logo no primeiro serviço foi encurralado pela turma mais pesada do presídio. Homens fortes, altos e simpatizantes do movimento skin head.
O líder foi tirar satisfação com Rubens.
– Então quer dizer que o senhor gosta de comer criancinha?
– Não senhor, respondeu Rubens
– Ah, agora eu sou mentiroso. Olha pessoal, eu sou mentiroso, falou o fortão para a gangue que o seguia.
Rubens não respondeu mais nada. Levou um soco, logo os outros homens começaram a bater também. Revezavam-se em  pontapés, socos, até que um deles teve a ideia de tirar as calças do homem todo encolhido no canto da sala. Todos riram e assim fizeram.
Sem calças, sangrando e imobilizado, Rubens foi currado por cada um dos homens da gangue. Restaram alguns dentes quebrados e muitas lágrimas.
A violência lhe rendeu três dias na enfermaria. E uma semana na solitária.
Assim iam passando os dias na cadeia. Todos se acharam no direito de fazer justiça com as próprias mãos. Mesmo depois de alguns meses Rubens ainda era torturado, abusado e espancado.
Vendo uma única saída para aquela rotina de violência se enforcou com o próprio lençol.
Deixou uma carta falando que não era culpado pelo que houve com os irmãos Fernando e Cristina. Em sua loucura, argumentou que Deus mandou purificar aquelas crianças, que estava sendo assombrado por crimes que não cometeu.
O corpo foi encontrado pelos guarda da ronda matutina. O homem foi enterrado sem ninguém para velar o corpo, nem mesmo um coveiro.
A partir daí coisas estranhas começaram a acontecer na cadeia.
Certa noite o vizinho, aquele que cuspia sempre que Rubens passava, estava já deitado e à beira do encontro com os deuses do sono, quando ouviu bem baixinho um choro, quase um uivo. Pensou que estava ouvindo o vento ou qualquer coisa assim. Mas o lamento  continuou. Levantou do catre e foi até as barras onde apurou a atenção. O som vinha da cela de Rubens. Ele não acreditou e colou a orelha na parede. Sim, o barulho vinha de lá. Manteve o ouvido na parede até que uma pancada altíssima fez com que se afastasse assustado.
Chamou os guardas que vieram correndo e ouviram a história do homem. Não havia nada na cela de Rubens, e mandaram que esquecesse aquilo, caso contrário ele entraria em castigo.
Na outra noite tudo se repetiu. O vizinho foi dormir chorando, ouvindo o murmúrio da cela vazia.
As portas do presídio começaram a se abrir sozinhas. E fechar também. Certo dia a ala dos chuveiros ficou trancada por duas horas sem que ninguém conseguisse abrir.
Na lavanderia todas as portas se escancararam ao mesmo tempo. Inclusive armários, máquinas, tudo se abriu de supetão.
As câmeras de segurança registravam tudo. E mais: toda vez que os carcereiros passavam em frente a cela de Rubens, sombras estranhas acompanhavam seus passos. Estava tudo lá, filmado e registrado.
Objetos caiam sem que houvesse vento.
Com o tempo os fenômenos foram ficando mais intensos. As portas batiam com mais violência.
O técnico responsável pelas filmagens pediu demissão. Não conseguia mais dormir muito menos ter uma vida normal. Estava sempre assustado e com medo.
A cela do homem nunca mais foi ocupada. Os gemidos da noite não deixavam que encarcerados ficassem por ali muito tempo.
No refeitório uma mancha enorme de sangue apareceu no chão. Como se uma quantidade grande de sangue houvesse encardido o assoalho. Nada tirava aquela marca.
Prisioneiros e carcereiros estavam apavorados.
O diretor não quis dar ouvidos a tantos disparates.
– Vocês estão agora achando que a cadeia está mal assombrada?  Poupem meus ouvidos, bando de maricas. Façam o trabalho de vocês, gritava o diretor para quem quer que reclamasse dos fenômenos.
Numa tarde de verão, um calor intenso tomou conta do local. Ninguém conseguia manter as roupas no corpo sem que encharcassem de suor. No pátio os homens se esgueiravam à sombra.
Logo um cheiro de queimado surgiu no ar.
– Porra, caralho, que merda de cheiro é esse? Perguntava o líder fortão que bateu em Rubens.
– Martelo, Linguiça, corram lá para ver o que tá acontecendo, mandou ele para dois de seus seguidores.
Martelo e Linguiça foram correndo. Voltaram num pé só avisando que a ala das “celas dos hediondos” estava pegando fogo.
Foi um alvoroço. Presos saiam correndo para todos os lados. Os guardas tentavam apagar o incêndio. Alguns prisioneiros aproveitaram para tentar uma fuga.
Formou-se um pandemônio.
Quando o caos se instalou simplesmente o fogo parou. Não havia mais fogo, nem fumaça, nem mais nada. Apenas um silêncio tenebroso, como se algum deus, ou demônio, tivesse mandado o mundo calar a boca.
Todos pararam o que estavam fazendo. Olhavam-se um para os outros sem entender o que estava acontecendo. Foi quando uma sirene ensurdecedora começou a apitar vinda de lugar nenhum. Todos caíram no chão. Ouvidos começaram a  sangrar, a dor era lancinante.
Estavam todos vivendo seu próprio inferno. Gritos, gemidos, raiva, medo. Tudo se misturava e novamente veio o silêncio. E mais nada aconteceu. Os guardas aos poucos foram levantando do chão, começaram a tomar providências.
Enfileiraram presos, ajudaram feridos e levaram todos de volta as devidas celas. Os corredores pareciam mais escuros, e tomados por uma presença demoníaca.
A área dos hediondos estava intacta. Como se nada tivesse acontecido.
O diretor procurou explicações, representantes políticos fizeram visitas, médicos, cientistas, físicos, nada explicou todos aqueles fenômenos.
Decidiram esvaziar o prédio. As pessoas estavam tão assustadas com o local que mais dois ou três se suicidaram em pânico.
O lugar ficou vazio.
A prisão ficou velha, ultrapassada e finalmente foi fechada. Nunca se achou uma explicação. 
Hoje toda a área está abandonada. Há quem escute os gritos assombrados e desesperados, iguais aos de Rubens, que se matou lá dentro e ainda tem quase mil anos de pena para cumprir.

FIM