eu não gosto de natal. de nada do natal. das
músicas, das cores, das luzes, das festas, nada. e não digo isso porque sou uma
chata mal amada e mal humorada. não. sempre tive natais memoráveis na minha
infância. sempre teve um papai noel entregando presentes, e
"surpreendentemente", entregava os presentes que eu mais queria
ganhar. naquela época da minha criancice não existia essa coisa de cartinha
para o papai noel na puta que o pariu. a gente só sabia que tinha que se
comportar pra poder ganhar o presente mais legal da rua. sim, eu cresci numa
cidade em que as crianças se reuniam para mostrar os presentes, e a gente
brincava com eles. juntos. bem diferente de hoje, né?mas enfim, saudosismo é
pra mais tarde. sou de família católica apostólica romana praticante. então o
natal lá em casa até a minha fase adulta (adulta? 30 e poucos anos?) era uma
noite dividida entre ir a missa e comer peru a meia-noite. sempre assim:
vestíamos a melhor roupa, íamos à missa e depois para a casa de alguém da
família. geralmente pra casa da minha mãe. e numa época que não se fazia amigo
secreto. todo mundo dava presente para todo mundo. era uma farra. lembro que
ainda em arroio grande (lá no interior onde eu nasci) minha mãe tinha que ir
até pelotas comprar os presentes porque arroio grande era tão pequena e
desprovida que não tinha shopping, nem nada. faz tempo que não vou lá, se
alguém souber como está, me avise. e as compras então eram feitas em pelotas,
cidade grande, cheia de opções. ou eram feitas no uruguai, quando se estava com
pressa era mais fácil ir ao uruguai que a pelotas. é minha cidade é quase no
estrangeiro. lembro de um desses natais que minha mãe escondeu os presentes
embaixo da cama dela. entre eles um skate para meu irmão. ele descobriu e
todo dia a gente ia lá ver um pedacinho do skate. quando chegou a noite de
natal, que ele foi ganhar o presente do papai noel e o embrulho estava todo
cheio de furinhos, todo esbugalhado. acho que foi ai que passamos a não
acreditar mais em bons velhinhos (pô tinha que ser muito burro pra não ver que
a gente já tinha mexido no presente, né não?). enfim, num outro natal esse
mesmo irmão (só tenho ele, tinha que sê-lo) caiu no berreiro porque o meu
presente era maior que o dele. - maninho, disse eu pacientemente, o meu
presente é um gato cheio de ar (querendo dizer que era inflável) e o teu é um
carro de bombeiro. vou deixar o meu menor. e assim furei o gato que acabara de
ganhar. minha mãe nem brigou. foi pra fazer meu irmãozinho parar de chorar. uma
boa causa. e assim eram os natais sempre com festa e reza. tinha uma propaganda
que me deixava bem triste, era da massom, uma loja que vendia joias. entrava a
música happy christmas do john lennon, e uma família feliz comendo alegremente
enquanto do lado de fora da casa uma criança pobre olhava a felicidade pela
janela. aquilo me cortava o coração. até hoje sou meio traumatizada com essa
música. e falando em música, acabei também traumatizada com a simone.
porraaaannnnnn a musiquinha de natal vai entrando na sua mente e não tem quem a
tire de lá. é igual tortura chinesa. credo. e a tal musiquinha se repete, se
repete, repete, repete, até você ficar com vontade de matar um, né? enfim. os
anos foram passando, minha mãe nos obrigando a passar o natal sempre juntos. e
eu fui desgotando dele. aquela correria consumista para comprar presentes em
shopping, o que é aquilo minha gente? o papai noel virou garoto propaganda da
coca-cola e eu não bebo mais coca-cola, me livrei do vício. o peru se repete, e
as músicas se repetem, e as compras, e a hipocrisia. detesto gente hipócrita
que passa o ano inteiro fudendo meio mundo e vai fazer caridade na época de
natal. ah se toca. natal não é isso. natal deveria ser um momento de reflexão,
um tempo pra gente repensar as merdas que anda fazendo. um tempo de confraternizar?
sim, por que não? mas com pessoas que a gente gosta, com quem nos faz bem e com
queremos bem, nada de obrigações sociais. sem contar o lado religioso que nem
existe mais. acredito que todo mundo saiba que jesus não nasceu no dia 25 de
dezembro. é uma data simbólica. foi incorporado à igreja católica só lá pelo
século três depois de cristo. originalmente era uma data para comemorar o nascimento
anual do deus sol no solstício de inverno. pra não perder fiéis a igreja
fez isso. ai foram-se somando costumes populares de fazer cartões, enfeitar
árvores, trocar presentes até que se criou o papai noel. posso fazer uma
pesquisa - para publicar mais tarde - sobre as origens dos símbolos natalinos.
acho que seria legal. o que aqui quero concluir é que essa época de
musiquinhas, renas, bonecos, presentes, me deixa muito angustiada, triste e de
saco cheio de tanta hipocrisia. quer fazer o bem? faça o ano inteiro. quer me
dar presente? não precisa de data. quer dizer que me ama? diz, não precisa
marcar no calendário. agora , eu menti. tem sim coisas que eu gosto no
natal: a família reunida e as comidas. claro que como boa gorda que sou, eu amo
tender, salpicão e rabanada. aaahhhh rabanada...bom, agora deixa eu ir ali
pendurar uma porra de uma guirlanda na porta pra não ficar tão antipática já
que todas as vizinhas penduraram as delas. p.s - sim, eu choro com música de natal...e
nas propagandas do zaffari.
Gostei da autenticidade, Andrea.
ResponderExcluirÓtima semana!
ei will. brigda. boa semana pra vc também. bj
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