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quarta-feira, 10 de abril de 2013

the cure, minhas desventuras e a avó morta



– deca, você pegou os ingressos?
– não. eles não estão com você, valério?
– não!
pânico geral.
– e agora valério, o que se faz agora?
– vou em casa pegar, vai sozinha! te encontro em são paulo.
e assim foi. ou melhor, fui.
minha viagem para ver o the cure começou em fevereiro quando descobri o show. valério, meu marido amantíssimo, comprou os ingressos mais caros disponíveis e me deu de presente. 
em princípio o show seria no morumbi. adoro são paulo mas confesso que não sei muito bem sobre as distâncias. pesquisei no google e vi qual o hotel seria melhor reservar (pela bancorbrás). um que fosse próximo do morumbi, confortável e com bom café da manhã. 
– vamos ficar num pertinho do show, né? perguntava eu entusiasmada.
um mês antes do grande dia descubro pela internet (sim porque a loja que vendeu os ingressos não mandou nem uma mensagenzinha, nada)  que o show mudou para o anhembi.
puta que pariu. tá, vá lá, pelo menos descobri a tempo. além do mais na pista premium, budzone, não haveria nenhuma troca de ingresso, nem trocas de valores...
ai começa a maratona bancorbrás: desmarca o hotel, remarca, nem todos estão disponíveis, nova pesquisa no google, espera três dias para autorização. pronto. consegui um hotelzinho no centro. tá ótimo.
e o mês passou voando. todo dia eu dava uma verificada nas notícias, re-escutava (ou reescutava?) os discos (discos é coisa de velho, né?) e revia fotos. entrei num concurso cujo o prêmio era encontrar com a banda e lógico que não ganhei mesmo minha frase sendo ótima. troquei plantões, remarquei médicos...
enfim, tudo pronto para o grande dia.
e o dia d chegou. a viagem era a tarde. no trabalho, bati o ponto mais cedo. mas naquele horário, pra "sorte" minha, havia uma manifestação popular em frente ao shopping que fica ao lado do meu trabalho. meia dúzia de manifestantes e a cidade toda parada. aqui e brasília é assim, se alguém peida na w3 sul o trânsito pára até a l4 norte. fiquei 45 minutos no engarrafamento.
consegui finalmente chegar em casa, peguei a nina e a ração e fui direto pra casa da minha mãe despachar a cadela. ela adora a casa da vovó então foi tudo bem fácil. difícil é o trânsito no lago norte....deus me ajude. 
voltei correndo para casa, coloquei uma muda de roupa numa mochila, o batom, o secador de cabelos e pronto. fiquei esperando o marido que havia prometido não se atrasar, não naquele dia. mas como de costume, atrasou. já fiquei meio puta, mas vamos lá, estamos indo pra são paulo, não há porque ficar de mau humor, né? saímos aos tropeções até o aeroporto. 
depois de 20 minutos procurando vaga naquele minúsculo estacionamento do aeroporto dito internacional, abordando cada infeliz que víamos com a chave na mão, conseguimos estacionar. a avianca tem um sistema de check in por computador então tava tudo certo (fiz o check in no trabalho). estávamos dentro do horário. ainda. fomos direto para o portão de embarque. na fila do raio x já estamos rindo à toa. passo na máquina e tudo certo. já meu marido fica detido.
– o que foi? pergunto.
– nada, meu anel caiu no vão da máquina.
– e tá tudo bem?
– não, acho que também perdi o estojo da lente de contato!
ele volta pra máquina, faz todas as atendentes do raio x procurarem o tal estojo até que acham dentro daquele containerzinho onde depositamos os objetos pequenos. só não entendi porque ele colocou o estojo lá se é um peça de plástico, não vai acusar na máquina. enfim...seguimos corredor adentro já preocupados porque o portão a, do embarque, é descendo as escadas e estávamos passando da hora. foi ai que ele me pergunta se eu estou com os ingressos. eu não estava, nem ele. naquele momento ele me deixou pra ir sozinha para sampa e saiu correndo de volta ao balcão da avianca. eu desci as escadas com um vazio no estômago. a minha sorte que encontrei um amigo tri legal e fomos rindo da situação. (antes de rir quase morremos de calor na tal van que leva os passageiros até o avião...)
dentro da aeronave, me surpreendi em como é grande a avianca. e confortável, e legal. sentei no meu lugar destinado pelo cartão de embarque "alguma coisa" c. no corredor. ao meu lado iria o valério em "alguma coisa" b e a janela é "alguma coisa" a. depois de fechada a porta (portas em manual) vem um funcionário com crachá da empresa e pergunta:
– tem alguém sentado ao seu lado?
– não, graças a deus, respondo eu bem alto.
percebi que muita gente achou graça porque a risada foi unanime.
– então você me dá licença de sentar ao seu lado?
– não. não dou. esse lugar estava reservado para meu marido, ele desistiu da viagem e agora eu quero ir sozinha aqui. posso?
– mas só tem esse lugar vazio.
– ah é? e se ele não tivesse desistido? você iria pendurado na asa?
nesse momento chega a aeromoça e avisa que tem lugar no 5b. ufa. salvo pelo gongo.
"por favor passageiro valério apresente-se a equipe..." pedia o comandante.
– aeromoça, o valério não vai se apresentar, ele não embarcou. desistiu, informei.
a essa altura os passageiros ao lado já estavam solidários, me olhando com cara de pena. acho que pensaram que eu tinha levado um fora fenomenal, né?
até são paulo foi tudo bem. a pessoa aqui não tinha um puto de um tostão no bolso. tive que desembarcar e andar meio aeroporto para achar um caixa eletrônico. ai pedi para o marido ligar no hotel para autorizar a minha entrada já que a reserva estava no nome dele. nessa fico sabendo que ele só vai conseguir voar às dez da noite (eram oito). fico na fila do táxi. quem conhece são paulo sabe que as filas são gigantescas. fiquei pacientemente esperando minha vez. entro na faixa amarela, o rapaz me diz: vai pro seis. (o box é numerado) fui. lá chegando uma tia surgida não sei de onde entra no MEU táxi. como assim??? poizé. ai o rapaz diz pra eu ir mais ali na frente. fui. o outro rapaz não sabia de nada, disse que eu tinha que voltar para a fila. claro que armei um barraco e claro que entrei no primeiro carro que apareceu. até chegar no hotel havia muito trânsito, mas eu já estava em são paulo, já tava começando a ficar bom. 
o tal hotel fica no largo do arouche. e lá tem dois hotéis, um em frente ao outro, com uma pista movimentada no meio. o taxista , claro, parou no hotel errado. tudo bem, era só atravessar a rua, não morri. cheguei inteira. fiz a ficha de entrada e finalmente fui para o quarto. aleluia. comi batatinha frita, tomei cerveja e pedi vinho. montei uma pequena mesa festiva para esperar o marido. que chegou quase uma hora da manhã. eu já estava bêbada e faminta. a mesa vazia e suja. descemos para ver se tinha algum boteco aberto, em são paulo sempre tem.
– senhor, tem sim uns botecos aqui ao lado mas lá é...tem um pessoal meio estranho...alternativo...dizia em pânico o gerente do hotel.
– o que o senhor quer dizer com isso? é perigoso? perguntamos.
– não, não...é que...senhor, lá tem muito viado mesmo.
quase tive uma sincope de tanto que ri.
– ah, tá bom. tudo bem, respondeu o valério também já rindo do aviso.
sentamos numa mesa tranquila. eu tava com tanta fome que pedi batata frita e frango a passarinho, sem nem olhar no cardápio se tinha. e tinha. bebemos cerveja e quando veio a comida dava para umas 10 pessoas comerem. distribuímos frango e batata para a galera que estava por ali. ainda deu para levar uma quentinha que deixamos para um mendigo que dormia na praça. valério fez o favor de pedir uisque. sabe o que é uisque no largo do arouche uma e meia da manhã? deve ser 51 com adoçante e conhaque...enfim, vivemos de aventuras não é mesmo?
saciada a fome e a sede voltamos ao quarto.
no outro dia, café da manhã mega bom, pra matar a ressaca. lá pelas três da tarde saímos para almoçar no sujinho e encontramos um grupo de amigos. caipirinha boa, comida farta e bem feitinha. de lá pegamos um táxi para o anhembi. o motorista do nosso carro devia ter uns 145 anos. era tão atrapalhado que parava no sinal mesmo estando verde. sobrevivemos a ele. foda foi que ele não dava conta de encostar o carro pra gente desembarcar. conclusão, nosso portão era o 28 ele parou no 42. andamos quase dois kilometros pra entrar no parque.
no local do show, meu espanto: palco enorme, lugar enorme, banheiros em excesso. bar pequeno. sentamos em frente ao palco e de lá não levantamos nem pra ouvir a primeira banda que abriu o show do cure. bandinha que nem sei de onde apareceu. uma tal de lautmusik, de porto alegre. quem escolheu essa banda? sei lá, uma vocalista velha, de vestido de lantejoulas imitando a siouxisie. nem se deram o trabalho de dar boa noite, de se apresentarem, nada. fiquei lá sentada ouvindo. a segunda banda foi ainda pior, não tinha vocalista, foi toda instrumental e desconhecida também. antes de acabar levantamos para afinal chegar perto do palco e esperar o grande momento. 
eu não sei, mas estou acostumada com o público em brasília. nunca achei que tivesse diferença, mas tem. aqui em brasília somos mais "quentes", nos entusiasmamos mais, gritamos, nos entregamos. lá pouquíssimas pessoas são mais empolgadas e além de tudo, muitas são mal educadas: querendo passar na frente de todo mundo, outras conversando durante o show como se estivessem em casa, enfim. bem diferente. uma guria quase apanhou . ficou me dando cotovelada. ai virei pra ela e perguntei:
– é guerra, é?
a sorte dela que o namorado mandou a fofa ficar quieta. ah se pego mando ela lá na grade da pista.
e assim, chega o grande momento. nem sei descrever a emoção de ver o ídolo entrando naquele palco. gente, foram anos de adoração. meus cabelos eram iguais ao dele, minhas roupas, meus tênis. eu ouvia cure 24 horas por dia. pra deixar o cabelão preto despenteado eu fazia trancinhas minusculas com o cabelo molhado e dormia assim. no outro dia desfazia as tranças e voilá, era uma massaroca só. sim, sou esse tipo de fã. e de repente tá um robert smith impecável lá na minha frente, pouquinhos passos de distância. claro que comecei a chorar. e só fui parar de verter lágrimas no primeiro bis, quando quase passei mal.
eu estava morrendo de sede. pra quem não sabe, sou maria mijona, bebo uns 3 litros de água por dia, e consequentemente preciso muito de banheiro. resolvi naquele dia beber pouco para não ir tanto ao banheiro. quase morri seca. precisei de umas 4 garrafinhas de água pra não desmaiar. e acabei saindo do meu lugarzinho privilegiado para sentar do lado do palco. o bar estava lotado, e como já disse, um público esquisito conversando e nem ai para o show. 
enfim, veio o segundo bis, levantei e voltei para perto do palco. não chorei mais mas nem acreditei no que estava vendo. som impecável, robert smith com um fôlego de dar inveja, um repertório que saciou todos os gostos, e um simon gallup que parecia um menino. fiquei feliz com aquilo tudo. foram três horas e 15 de show. foi o show da minha vida.
na saída, começa o caos. não havia sinalização. quase dobramos para o lado errado. perguntamos a uma vendedora de camiseta qual melhor lado para ir pro centro. ela não soube responder. apelamos para o guarda
– vocês vão à pé? perguntou ele.
– claro que não, mas queremos pegar um táxi, um metrô, qualquer coisa...
– ah então sigam reto até a estação tietê. 
lá fomos nós. e toda a torcida do corintians. era uma boiada de umas trinta mil pessoas. quando chegou a passarela para ir pro metrô desistimos, seguimos reto pela rua onde tinha uma parada de ônibus. e um posto policial. o guardinha ali disse que seria difícil pegar táxi e quando alguém parava tava cobrando R$90,00 para levar até o centro. encontrei outro amigo brasiliense e enquanto nos abraçávamos parou um ônibus. itaim bibi dizia nele. valério pergunta pro motorista se  passa no centro.
– sim, passa.
– deca, vem, vamos descer numa outra parada e lá a gente pega um táxi.
claro que todos que estavam por ali ouviram a ideia brilhante e se amontoaram para pegar o ônibus também. fomos espremidos até uma estação perto do hotel. conseguimos um táxi e chegamos vivos. e famintos. a sorte que tinha serviço de quarto e nos esbaldamos na chiqueza do room service.
ah, esqueci de contar que antes de sair para ir almoçar no tal sujinho, coloquei todos os meus documentos no cofre do hotel...que ficou sem bateria e trancou sem que ninguém conseguisse abrir. assim, domingo pela manhã, nossa primeira missão foi abrir o tal cofre. a confusão foi tanta que o gerente que estava em casa de folga teve que ir até lá destravar o trem. de posse dos documentos fomos para o aeroporto.
no aeroporto tudo certo. mudaram o embarque do portão 1 para o portão 6. andamos pra caralho, mas sobrevivemos. 
em brasília pegamos a nina na casa da avó e finalmente cheguei ao meu sofá.
no outro dia trabalhar foi muito difícil, mas eu estava feliz, nem me importei. fui para a minha acupuntura depois  do expediente. eu estava completamente afônica. 
deitei na maca e num sussurro disse para a médica:
– eu perdi minha voz.
– ah, meus pêsames. ela era velhinha? perguntou a médica.
– não doutora, não foi minha avó, foi minha voz...eu perdi a voz...
dai ela reforçou as agulhadas e não se falou mais nisso.


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